27 abril 2013

CONTEMPLAR

«Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra…»
Carlos Drummond de Andrade – 1902/1987

Não creio que existam palavras neutras, ou, pelo menos, completamente neutras.
É verdade que nos habituámos a usar umas «bengalas» na linguagem de todos os dias que são pouco mais do que sons sem significado. Exemplos? «Hum,hum; hã,hã; é claro; pois…», as últimas com o sentido de «concordo», como resposta ao interlucotor, final de uma conversa que não leva a lugar nenhum. Algumas destas «bengalas» correspondem a modas que, como é próprio das modas, cairão no esquecimento .Porém, enquanto duram, acrescentam colorido e vivacidade à língua.
Entre os jovens circulam sons, tais como: «ya, fixe, meu, tá», semi-palavras que valem como frases para quem domina o código. Não exigem esforço de elaboração do emissor nem de decifração do recetor; são imediatas, funcionais e efémeras, também; viverão enquanto os falantes lhes conferirem valor coloquial.

O poeta chama-nos para outro tipo de palavras, não, necessariamente, as muito elaboradas ou eruditas, mas as que são operativas, as que suscitam associações, as que têm força para transformar, as que realçam, arredando a névoa, um objeto que, agora, vemos claro, quando descortinamos a sua face oculta.

Para cada palavra mil faces, é liberdade poética, uma hipérbole de artista que sente e sabe, com a sabedoria que vai mais fundo do que os sentidos ou a razão, que, escondidos sob uma qualquer ganga, há tesouros por encontrar. Se não forem mil as faces secretas de uma palavra, que importa, se desvendarmos uma face, aquela face que buscávamos e que se nos escapava, sempre fugidia?

O poeta diz-nos para nos chegarmos mais perto porque, ao longe, tudo é vago e difuso. Perto, sim, porque só de perto se pode contemplar seja o que for, e também as palavras.
O significado de contemplar remete para o sentido da vista e para um certo quietismo perante o objeto que se examina, para que nada escape à análise. Quando se trata de palavras é o sentido da audição que sobressai, ficando a vista reservada para o grafismo com que uma palavra é representada, insonora mas significativa para quem a decifra.
As palavras são, pois, para contemplar. Eu não sabia isso, até ao momento em que contemplei os dois versos do grande poeta brasileiro que, acima, transcrevo.

Maria Amélia Timóteo
Texto publicado no jornal da S. C. M. do Cartaxo.

Orgânico
Grito

18 março 2013

REDE

Escrever espontaneamente é algo que só acontece quando o impulso de registar um pensamento, uma imagem, uma fantasia, se torna urgente, sem consentir demoras.
A vida social exige, contudo, outras escritas, as quais são reguladas pela rede em que nos inserimos: relatórios, discursos, apreciações críticas, artigos temáticos ou entrevistas, às vezes trabalhos por encomenda, cartas, mesmo um qualquer recado, claro, objetivo, imediato.
Esta é a escrita mais ou menos formatada, a que tem de se cumprir no exato tempo, isto é, a escrita como obrigação. A primeira, é a escrita que flui como uma nascente que irrompe, livre de constrições, de horários e de condicionantes externas. Será rápida ou pausada, realiza-se, sem mais, ao ritmo que ela própria cria a cada nova palavra com que se expressa.
Quando se pode escrever desta forma descomprometida, em tudo livre, é a própria alma que se passeia sobre o papel ( ou sobre o teclado) e conduz a mão, perseguindo a ideia. Desta forma se constrói, fio a fio, a narrativa, numa rede tecida sem esforço, branda e segura, de nós firmes e malhas contínuas.

Refletindo acerca destas duas distintas, quase opostas, formas de escrever – uma livre; a outra, dependente das normas estabelecidas – encontrei uma palavra que a ambas é comum porque a ambas convém, na medida em que serve para configurar o respetivo significado: rede.

O emaranhado de fios que forma a sociedade assenta em códigos que facilitam a comunicação, com vista à sua eficácia e geral compreensão. Depois, para cada área dos diferentes saberes, existem termos próprios, usados pelos especialistas, e a que os leigos só acedem por mera aproximação, enredados em conceitos que não dominam. Estamos, assim, em presença de uma rede.
Quando a escrita é espontânea, a rede é muito fluida, de malhas largas e fios delgados, de modo que a comunicação tenda a alcançar uma compreensão universal. Nada de mais falso, porém. A escrita livre, não excluindo quaisquer leitores, não os busca, em concreto, nem busca o seu aplauso ou adesão. Eles poderão entrar ou sair da rede, fixar-se num ponto ou num outro, entender de uma forma ou da forma oposta, adotar como seu o discurso ou rejeitá-lo.
A escrita livre dirige-se a leitores, em absoluto, livres, mas que não podem condicionar ou orientar o que é escrito. Tocam a rede quando querem sem necessitarem de confinar-se nela. Tão pouco podem pretender alterá-la. Circulam, tão somente, entre as suas malhas.

E, como se situa, relativamente ao texto, quem o escreve?
Vai tecendo a rede, reforçando as malhas onde as sente menos firmes, alargando alguns nós, tecendo e desfazendo a teia, até dar por concluído o escrito. Quando aí chega, com intermitências ou de um só fôlego, transforma-se em leitor, igual a qualquer outro, apenas com uma pequena diferença: pode recompor, ainda, as malhas, cerrá-las ou abri-las mais, ou, eliminar algumas, por desnecessárias.
Por fim, chega o momento em que a rede não consente mais ajustes.
Estendida a todos, aguarda, silenciosa, quem nela quiser prender-se.

Maria Amélia Timóteo
Texto publicado no jornal da S. C. M. do Cartaxo.

20 fevereiro 2013

FÁBULA

A lesma é um caracol sem-abrigo.
O seu corpo nu, sempre exposto à chuva, ao vento, à torreira do sol, é moreno, de tez carregada, bem distinta da tez mais clara do caracol que, detentor de outros recursos, defende melhor os seus interesses.
A concha pode ser selada quando tal se torna necessário, como uma porta que se fecha para maior conforto de quem vive na casa. Os olhos, implantados em corninhos, vêem mais longe e salientam-se ou recolhem-se, verdadeiros periscópios de submarino, emergindo da água na ocasião certa.
Mas também existem muitas semelhanças, de família, entre estes bichos: sem osso nem armadura, qualquer pé os esmaga, na pressa da caminhada, sem intenção, ou com o propósito de os eliminar, pois que ambos são vorazes consumidores de verdura tenra. Nos campos incultos não há quem se importe com o consumo; já nas hortas e jardins, o caso muda de figura. Aí, são mal-amados, sujeitos à ação de químicos que os afastem ( ou matem). Porém, que se saiba, não são espécies em perigo de extinção; mas, lá que têm a vida sempre por um fio, isso não se pode negar.

Predador em toda a linha é o gafanhoto. Robusto, corpo endurecido, pernas de atleta, olhos que descortinam a comida a grande distância e, sobretudo, asas, asas que lhe permitem voar de continente em continente, o gafanhoto não se fica por mesas baixas, isto é, não lhe bastam canteiros de hortas e jardins. Abastece-se onde houver maior fartura e melhor qualidade. Após a sua passagem, toda a vegetação fica como se tivesse ocorrido uma tempestade de granizo, esmordaçada, sem préstimo, sem esperança de ser alimento para outros animais. Nada que cresça firmado numa raiz – vinhas, pomares, olivais – fica a salvo da sua desenfreada gula.

Diz a fábula moderna que, numa bela manhã, se encontraram num pequeno quintal uma lesma, um caracol e um gafanhoto. Ao ver o gigante avançar sobre o limoeiro, a lesma escondeu-se debaixo de uma folha caída e foi procurar, no solo em decomposição, alguns restos de verdura mais ou menos comestíveis. E escondida se manteve enquanto o inseto se banqueteava.
O caracol, junto a um pé de couve galega, roía um rebento novo quando, para seu espanto, o gafanhoto, saltando do limoeiro, pousou na couve e começou a rasgá-la, folha por folha, a tal velocidade que, em menos de nada, só restavam talos, como esqueletos sem carne.
Indignado com a visível falta de sensibilidade do gafanhoto, o caracol interpelou-
-o:
-Senhor Gafanhoto, não vê que comeu em excesso? Eu estava a alimentar-me da couve que o senhor acaba de ripar completamente! Nem uma folha me resta!
Ao ouvir o protesto do caracol, a lesma saiu do esconderijo e avançou um pouco em direção aos outros animais.
O caracol continuou:
- Se o senhor não parar de comer, nós não podemos sobreviver, não podemos aguentar!

Nesse instante o gafanhoto reparou na lesma, quase confundida com a terra, criatura ínfima, desprovida de tudo, sem defesas; contudo, estava viva, a rastejar, a rastejar…
Perante o que vira, e já de partida para o quintal vizinho, o gafanhoto dignou-se, em tom conciliador, responder ao caracol, apontando a lesma:
- O senhor não aguenta? Ai aguenta, aguenta. Pois se até a lesma aguenta!

E, assim, bateu asas e voou, tranquilo, com a absoluta certeza de que os bichos rasteiros não só aguentam como é próprio da sua índole aguentar.

Maria Amélia Timóteo
Texto publicado no jornal da S. C. M. do Cartaxo.



14 janeiro 2013

PAPEL

Ofereceram-me, há alguns anos, um pequeno bloco de papel de arroz que conservo intacto. É um material de cor crua, macio, sedoso, semi-transparente, que deixa ver, a espaços irregulares, as fibras da planta de que foi fabricado. Retiro-o da gaveta com o intuito de nele escrever ou desenhar, mas acabo sempre por desistir, receosa de que, o que quer que produza, lhe diminua a beleza.
Como se percebe, gosto de papéis, de os tocar, avaliando as texturas, de os dobrar e desdobrar, de os enrolar, de os recortar, de neles imprimir pensamentos, formas ou cores.

Vivemos, de há muitos séculos, «embrulhados», por assim dizer, mesmo quando ainda não existia o papel e era em blocos de argila, seca ao sol ou cozida, que os homens gravavam as leis que regulavam a vida em sociedade, os mitos que lhes conferiam a identidade, enquanto povos, a poesia que os diferenciava, enquanto indivíduos.

No Egito antigo, nas margens do Nilo, crescia o papiro, a planta de cujas fibras se teceram as primeiras folhas a que podemos, pela funcionalidade, pela configuração, pela maleabilidade, pela delicadeza, pela facilidade de escrita que consentem, chamar «papel». A biblioteca de Alexandria guardava – guarda ainda – milhares de rolos de papiro, livros e livros sobre os mais variados temas. Com idêntica importância na Antiguidade, a biblioteca de Pérgamo, na Anatólia (Ásia Menor), há muito desaparecida, também encerrava tesouros de literatura, em rolos de papiro que importava do Egito, o fornecedor do produto na bacia mediterrânica. Fosse porque a procura superava a oferta, fosse porque existisse, de alguma forma, rivalidades entre estas bibliotecas, o certo é que Pérgamo deixou de receber do Egito o suporte para os seus registos escritos. Caso dramático, como se pode imaginar. Mas, porque as necessidades aguçam o engenho, eis que surge um novo material, mais resistente, que haveria de ter longevidade bastante para chegar aos nossos dias e ainda ser usado, em situações restritas de afirmação do poder: o pergaminho.

O pergaminho deve o seu nome à cidade onde terá sido inventado, ao que se diz, por um cidadão de nome Hirodicus. A sua origem é animal; trata-se da pele de animais jovens – cabra, cordeiro, camelo, vitelo – que, depois de curtidas e longamente preparadas, em fases sequenciais, ficam aptas para nelas se poder escrever e pintar. Este material, muito caro, por causa da morosa preparação, fez com que os livros fossem um artigo de luxo, só acessível a muito poucos.
Valeram-nos, então, os chineses, povo muito industrioso que inventou, no século I da nossa era, o papel, cozendo, tratando e laminando fibras vegetais e trapos. As técnicas foram sendo melhoradas e simplificadas e o papel produzido na China «viajou» até à Índia onde os árabes o conheceram. As caravanas transportaram-no pelo mundo, então, conhecido. Assim, chegou à Europa. No caso da Península Ibérica, o local de difusão foi a cidade de Fez, em Marrocos, onde se implantaram florescentes manufaturas de papel na Idade Média.

O linho, o algodão, o cânhamo, a folha de bananeira e, mais recentemente, o pinheiro e o eucalipto são as matérias-primas para os diferentes tipos de papel, hoje produzidos de forma industrial, em larga escala.

Muita coisa mudou no mundo; mas, o nome do suporte sobre o qual agora escrevo, não renega a família de onde provém: papiro.

Caro leitor: que papel tem o papel na sua vida?
Não, não pense nisso, nos papéis que a burocracia nos impõe! Esses só complicam e nos complicam com os nervos! Também não me refiro ao papel-moeda, produto rarefeito, que não é chamado à conversa.
Eu queria, apenas, perguntar, se os papéis lhe fazem companhia, que lugar lhes dá, como são as vossas relações…
Por mim, como já adivinhou, não os dispenso.

Maria Amélia de Vasconcelos
Texto publicado no jornal da S. C. da M. do Cartaxo.

TRONCO DE EUCALIPTO


Refúgio de gnomos