Palavras Roladas é um espaço de simples reflexão acerca das palavras que usamos na linguagem de todos os dias e, porventura, de outras, menos gastas, quando convier. As imagens visuais hão-de infiltrar-se, seguras da sua eficácia. Palavras roladas, como os seixos que o vento e o movimento das águas afeiçoaram, como frutos. Então, os olhos encontram-nos e a mão recolhe-os e aquece-os um momento para, mais além, os devolver à praia onde outros olhos e outras mãos os hão-de descobrir e dar calor.
19 junho 2011
18 junho 2011
MEALHA
De há muito está fora de moda esta palavra.
Tal como o vestuário, os móveis, os utensílios, os costumes, as palavras também têm a sua época alta, quando todos as usam de forma adequada; depois, pouco a pouco, vão decaindo até se encobrirem, por completo, sob a poeira do esquecimento. Só uns poucos documentos, tão antigos quanto elas, ainda as registam. São documentos que fazem as vezes de museus, museus de palavras, testemunhas de um falar já perdido e cuja objetividade nos escapa.
Se recuarmos até ao século XIII, e se fosse fácil (que não é) entendermos bem o vocabulário da época, já para não falar na caligrafia, a palavra «mealha», escrita num documento, não ofereceria qualquer dúvida: tratava-se de uma moedita de cobre, de ínfimo valor, que correspondia a metade de um dinheiro português.
Ora, nesse tempo, circulavam em Portugal muitos tipos de moedas: o morabitino velho, moeda forte, ainda árabe, o morabitino afonsino, o branco (de prata) burgalês, que era castelhano, o soldo, que valia doze dinheiros, além de outras; de todas, a menor em tamanho e em valia, era a mealha.
Terminada a vigência da mealha, ficaram-nos, como seu legado, os traços de família, patentes em palavras como «mealheiro» e «amealhar». Estas duraram e eram palavras robustas, cheias de conteúdo, até há duas ou três décadas, usadas por uma parte considerável da população portuguesa, quando amealhar significava pôr de parte algum dinheiro, fosse para uma aflição, fosse para uma ocasião festiva, de maiores gastos, ou para umas férias, ou para pagar os estudos de um filho; enfim, tratava-se de juntar uma quantia tendo em vista um objetivo, evitando, assim, recorrer a outrem para resolver questões que uma boa previsão poderia acautelar. Neste momento, temo que a palavra «amealhar» possa seguir o caminho da bruma que envolveu a mealha.
Quanto ao mealheiro, o objeto, ainda está à venda por aí, nas quinquilharias das feiras, nas lojas de utilidades. A dúvida está em saber se o mealheiro, nos tempos que correm, tem utilidade. Quem o usa, de facto? Ainda se dão moedas às crianças para guardar no mealheiro? Ainda se lhes explicam as vantagens de atitudes como «poupar», «juntar para»?
São perguntas sem resposta.
Espero, no entanto, que as dificuldades económicas que os povos deste mundo global, que é o nosso, estão a viver, levarão os comunicadores, aqueles que formatam a opinião pública, os que apontam caminhos e prevêem tendências, a recuperar a ideia de poupar, quer a nível das famílias, quer a nível dos estados, umas e outros comparáveis a vasos comunicantes, em tempos de aperto do cinto.
É que, mealha a mealha, se pode encher um mealheiro, valha isso o que valer.
Assim se encontrem mealhas.
Maria Amélia de Vasconcelos
Texto publicado no jornal interno da S. C. da M. do Cartaxo.
08 maio 2011
HOMENAGEM
O convite veio da família mais chegada, família em que, de certo modo, também nos incluímos, pelos laços do afecto que são aqueles que o tempo ou a distância nunca desatam.
Para uma tarde de sábado estava marcada uma homenagem ao nosso amigo que tínhamos acompanhado, em Fevereiro último, numa outra homenagem, com flores, velas e lágrimas.
A sala pequena foi-se enchendo de rostos sorridentes, à volta das mesas onde pousavam poesias inéditas do homenageado. Quem chegou mais em cima da hora, ou com a hora já passada, foi-se arrumando como pôde, de pé, mas a pé firme.
Voluntária e espontaneamente, foram surgindo os testemunhos. No conjunto, delineavam o retrato de um homem bom, sereno, de bem consigo e com o mundo, atento, porém, aos outros e ao seu meio. Dotado de mãos hábeis, construiu, em madeira, miniaturas de móveis com a minúcia, a funcionalidade e a arte que se requerem nos móveis a sério, nos que se guardam nos museus e são património de valia. Essas peças, expostas na sala, receberam os mais elogiosos comentários.
Seguindo-se a cada testemunho, escutou-se a leitura, também espontânea, de alguns dos poemas, de entre os inéditos que estavam disponíveis, ou dos que se iam escolhendo do livro que, em vida do poeta, foi publicado.
A poesia, gravada na sua alma, moldou-lhe a identidade e ficou patente na sua forma de ser e de estar: harmonia, singeleza, transparência e uma absoluta honestidade. Nunca buscou fama nem reconhecimento. Uma boa parte dos seus conterrâneos desconhecia, até, que escrevia e só quando o seu livro viu a luz do dia o soube. Alguns amigos ouviram-lhe, de viva voz, as rimas; outros, mais próximos, admiraram os cadernos nos quais, com uma caligrafia belíssima - arte, também -, guardava, passados a limpo, os poemas.
Nos tempos mais difíceis, afligido por males que a ciência já não podia minorar, os seus «papéis» mantinham-se sempre ao alcance da mão. Julgo que sejam dessa época os versos que se seguem: «Já nada me serve sonhar…/ Nada posso aproveitar/ dos sonhos que hoje tiver.». É visível a consciência de um limite, de um momento que se aproxima. Contudo, as palavras não ficam por registar, são como que uma respiração que ocorre porque, na sua essência, são vida.
Amou a vida e soube vivê-la de acordo com os seus princípios e com o seu sentir.
Partiu com a mesma suavidade com que marcou aqueles que tiveram oportunidade de o conhecer e que, por isso, lhe estão, para sempre, agradecidos.
Maria Amélia de Vasconcelos
Texto publicado no jornal interno da S.C.da M.do Cartaxo.
07 abril 2011
MEMÓRIA
- Conheces?
- Não. É linda!
- Quem seria?
- Uma amiga da avó, talvez. Nunca te falou dela?
- A mim?! Eu era uma criança quando a avó faleceu.
A fotografia, a preto e branco, todas as gradações intermédias de cinzento, entre sombra e luz, moldando as formas, foi passando das mãos de uma para as mãos da outra.
- E o tule bordado da blusa, ou vestido? Que delicadeza nos pormenores!
- Porquê eu? Fica tu. Podes emoldurá-la, até.
- Sim? E diria que era quem? Uma tia?
Maria Amélia de Vasconcelos
Publicado no jornal interno da S. C. da M. do Cartaxo.
- Não. É linda!
- Quem seria?
- Uma amiga da avó, talvez. Nunca te falou dela?
- A mim?! Eu era uma criança quando a avó faleceu.
A fotografia, a preto e branco, todas as gradações intermédias de cinzento, entre sombra e luz, moldando as formas, foi passando das mãos de uma para as mãos da outra.
Permanecia íntegra, sem amarelecimentos, sem vestígios de humidade, dentro de um envelope rígido, esse, sim, acusando a usura do tempo. O selo branco de um fotógrafo londrino marcava o cartão da capa no canto inferior direito. Folheando, seguia-se o papel translúcido, com finas aranhas em relevo, a proteger o rosto oval e o colo de uma mulher adulta, jovem ainda, uns olhos líquidos, penetrantes, e um quase sorriso, um jeitinho na boca de quem pronunciaria uma palavra se o flash não tivesse disparado antes.
- É obra de um artista. Repara nos ornamentos do contorno, como que uma moldura…- E o tule bordado da blusa, ou vestido? Que delicadeza nos pormenores!
Na base, sobre o diluído pregueado da roupa, a dedicatória: «To my dear friend, Mrs. …». Pouco mais conseguiram decifrar. Aquela caligrafia alta, inclinada, com hiatos entre cada letra, era críptica. O nome da avó não oferecia dúvidas. Àcerca da assinatura, em letra mais miúda, tal como a última das cinco linhas, não estiveram de acordo. A inicial caprichosa do nome próprio podia ser um «E», um «L», ou um «F»…
- Ficas tu com a fotografia?- Porquê eu? Fica tu. Podes emoldurá-la, até.
- Sim? E diria que era quem? Uma tia?
- Não tens de explicar nada. Podes dizer, simplesmente, a verdade: que era uma amiga da avó, uma senhora inglesa.
Durante semanas, a foto foi ficando sobre a cómoda onde fora encontrada, enquanto a casa ia ficando vazia.
Quando chegou a vez da cómoda ser retirada, a fotografia foi transferida para o peitoril da janela, e de novo admirada e discutido o destino a dar-lhe. Não representando nenhum familiar, nem os de sangue, nem os dos afectos, não fazia sentido guardá-la.
Incomodava, a ambas, deitar fora uma imagem tão bela. Sim, mas primeiro teria de ser destruída. Um rasgão, a meio; depois outro, outros, até restarem só pedacinhos que, a esmo, foram lançados no saco dos papéis para reciclar.
De quando em quando, o enigma da senhora inglesa vinha à conversa. Originou, até, uma espécie de aforismo familiar:
«- Olha? Isso é como a fotografia da inglesa: ninguém sabe, ao certo…».
Porém, como nada se perde, em qualquer parte do mundo, alguém terá escrito, ou há-de escrever, um poema, uma mensagem banal, uma carta definitiva, um relatório, um mapa de tesouraria, um atestado, nas fibras que fixaram, nos anos vinte do século vinte , a imagem de uma belíssima mulher.
Definitivamente, só existimos, no futuro, enquanto alguém guardar a nossa memória.
Depois, havemos de ser, algures, outra coisa qualquer.Maria Amélia de Vasconcelos
Publicado no jornal interno da S. C. da M. do Cartaxo.
08 março 2011
CARNAVAL
O calendário marca, na roda do ano, as épocas próprias para as diferentes festas. Cumprindo o estabelecido, foi a vez do Carnaval, ou Entrudo, festa móvel que, neste ano, «caiu» em Março. Em rigor, o Carnaval não se reduz a um dia especial; é, antes, uma época, relativamente alargada, que se estende desde o dia de S. Vicente – 22 de Janeiro – até Terça-feira Gorda, o último dos três dias «gordos» que incluem a segunda-feira e o domingo anteriores.
As origens do Carnaval são remotas e, como quase sempre acontece com as tradições que perduram, assentam em crenças religiosas que, de uma forma ou de outra, se relacionam com os ciclos da Natureza.
Os romanos, herdeiros e divulgadores de muitos cultos religiosos, que assimilaram com a mesma avidez com que submeteram, militarmente, os mais diversos povos, reabilitaram o arcaico deus grego Cronos – o Tempo – sob a denominação de Saturno. Cronos detinha a foice mágica que cortava o tempo velho (o inverno) para permitir a entrada do tempo novo – a primavera. Nos territórios do império romano, o culto de Saturno (Cronos) foi amplamente difundido. No inverno, entre os finais de Dezembro e Fevereiro, nos bosques, realizavam-se festas noturnas – as saturnálias – em que, ao redor de fogueiras, homens e mulheres se entregavam a danças rituais, vestidos de branco, roupagem da deusa egípcia Hathor, deusa lunar, interveniente na passagem das almas da vida terrena para vida eterna, também ela adotada pelos romanos, e com lugar no panteão. Estas festas, transversais a todas as classes, incluíam o consumo excessivo de comidas e bebidas, o que levava a uma desmesura nos costumes que não era tolerada em qualquer outra época do ano. À ideia de renovação andavam associadas lendas e superstições: era necessário deitar fora o que era velho e receber, de Saturno, aquilo que era novo, o vigor que só os deuses podiam transmitir aos homens. Imbuídos do novo, os povos participavam da energia cósmica que era patente no despontar das árvores e no desabrochar das primeiras flores. Em linguagem coloquial dos nossos dias, diríamos que os povos «carregavam baterias».
Com o estabelecimento do cristianismo, no século IV, a Igreja procurou que as celebrações das saturnálias se conformassem, tanto quanto possível, com os preceitos doutrinais. Nos diferentes estados que se formaram após a queda do império romano, as festas foram ficando confinadas a um período de tempo mais restrito, mudando-se o seu nome para «Carnaval», e foram sujeitas a leis que visavam moderar o desregramento e a violência.
No período do Renascimento, em Itália, o Carnaval era pretexto para festas sumptuosas. Os grandes senhores, servidos por artistas talentosos, disputavam a glória de serem recordados por promoverem os divertimentos mais criativos. A coberto das máscaras, recuperadas do antigo teatro grego, e das pequenas mascarilhas, mais cómodas de usar, os foliões noturnos davam livre curso aos seus intentos. Durante o dia, realizavam-se desfiles subordinados a um tema, como acontece, presentemente, no Carnaval do Rio de Janeiro, o mais popular à escala mundial graças aos meios de comunicação global.
Carnaval é uma palavra francesa usada em quase todas as línguas e derivada de «carnelavare» que, no dialecto da Toscânia ( norte de Itália) significa «levar» ou «retirar» a carne. Como se entende, a palavra indica a chegada da Quaresma e a consequente obrigação do jejum. O termo «Entrudo», só usado na Península Ibérica», advém diretamente do latim «introitu» que significa «entrada», a entrada da Quaresma, período de purificação que se inicia na quarta-feira de cinzas.
Em Portugal, uma disposição régia de 1542, determinava que não se realizassem os trabalhos da chancelaria até quinta-feira, o que indica que, depois dos folguedos, a quarta-feira de cinzas era dia assinalado, não sabemos se por ser o primeiro da Quaresma se por ser necessário descansar.
A tradição de um Carnaval agressivo, que não poupava ninguém, foi-se diluindo com o passar dos tempos, mercê, também, de leis, como a de 1817, que proibia as brutalidades da quadra.
O Carnaval continua vivo, por esse mundo fora. Brincar faz bem ao corpo e à mente, com conta, peso e medida, como é uso dizer-se, ou não vivêssemos numa sociedade organizada, pronta para punir todos os carnavais excessivos e, por maioria de razão, todos os carnavais fora de época.
Maria Amélia de Vasconcelos
Texto publicado no Boletim Informativo da S. C. da M. do Cartaxo.
04 março 2011
LÍAMOS POEMAS
Líamos poemas ao entardecer
ou no calor
das noites acesas.
O gravador de fita
uma a uma repetia
as palavras presas
e devolvia
quase exacta
a cor da nossa emoção.
A inspiração dos poetas
soltava nossa voz original
oculta e pura
cristal da rocha
por lapidar.
Líamos poemas ao entardecer
A tactear a harmonia
De olhos acesos acesos acesos.
Maria Amélia de Vasconcelos
ou no calor
das noites acesas.
O gravador de fita
uma a uma repetia
as palavras presas
e devolvia
quase exacta
a cor da nossa emoção.
A inspiração dos poetas
soltava nossa voz original
oculta e pura
cristal da rocha
por lapidar.
Líamos poemas ao entardecer
A tactear a harmonia
De olhos acesos acesos acesos.
Maria Amélia de Vasconcelos
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