20 fevereiro 2013

FÁBULA

A lesma é um caracol sem-abrigo.
O seu corpo nu, sempre exposto à chuva, ao vento, à torreira do sol, é moreno, de tez carregada, bem distinta da tez mais clara do caracol que, detentor de outros recursos, defende melhor os seus interesses.
A concha pode ser selada quando tal se torna necessário, como uma porta que se fecha para maior conforto de quem vive na casa. Os olhos, implantados em corninhos, vêem mais longe e salientam-se ou recolhem-se, verdadeiros periscópios de submarino, emergindo da água na ocasião certa.
Mas também existem muitas semelhanças, de família, entre estes bichos: sem osso nem armadura, qualquer pé os esmaga, na pressa da caminhada, sem intenção, ou com o propósito de os eliminar, pois que ambos são vorazes consumidores de verdura tenra. Nos campos incultos não há quem se importe com o consumo; já nas hortas e jardins, o caso muda de figura. Aí, são mal-amados, sujeitos à ação de químicos que os afastem ( ou matem). Porém, que se saiba, não são espécies em perigo de extinção; mas, lá que têm a vida sempre por um fio, isso não se pode negar.

Predador em toda a linha é o gafanhoto. Robusto, corpo endurecido, pernas de atleta, olhos que descortinam a comida a grande distância e, sobretudo, asas, asas que lhe permitem voar de continente em continente, o gafanhoto não se fica por mesas baixas, isto é, não lhe bastam canteiros de hortas e jardins. Abastece-se onde houver maior fartura e melhor qualidade. Após a sua passagem, toda a vegetação fica como se tivesse ocorrido uma tempestade de granizo, esmordaçada, sem préstimo, sem esperança de ser alimento para outros animais. Nada que cresça firmado numa raiz – vinhas, pomares, olivais – fica a salvo da sua desenfreada gula.

Diz a fábula moderna que, numa bela manhã, se encontraram num pequeno quintal uma lesma, um caracol e um gafanhoto. Ao ver o gigante avançar sobre o limoeiro, a lesma escondeu-se debaixo de uma folha caída e foi procurar, no solo em decomposição, alguns restos de verdura mais ou menos comestíveis. E escondida se manteve enquanto o inseto se banqueteava.
O caracol, junto a um pé de couve galega, roía um rebento novo quando, para seu espanto, o gafanhoto, saltando do limoeiro, pousou na couve e começou a rasgá-la, folha por folha, a tal velocidade que, em menos de nada, só restavam talos, como esqueletos sem carne.
Indignado com a visível falta de sensibilidade do gafanhoto, o caracol interpelou-
-o:
-Senhor Gafanhoto, não vê que comeu em excesso? Eu estava a alimentar-me da couve que o senhor acaba de ripar completamente! Nem uma folha me resta!
Ao ouvir o protesto do caracol, a lesma saiu do esconderijo e avançou um pouco em direção aos outros animais.
O caracol continuou:
- Se o senhor não parar de comer, nós não podemos sobreviver, não podemos aguentar!

Nesse instante o gafanhoto reparou na lesma, quase confundida com a terra, criatura ínfima, desprovida de tudo, sem defesas; contudo, estava viva, a rastejar, a rastejar…
Perante o que vira, e já de partida para o quintal vizinho, o gafanhoto dignou-se, em tom conciliador, responder ao caracol, apontando a lesma:
- O senhor não aguenta? Ai aguenta, aguenta. Pois se até a lesma aguenta!

E, assim, bateu asas e voou, tranquilo, com a absoluta certeza de que os bichos rasteiros não só aguentam como é próprio da sua índole aguentar.

Maria Amélia Timóteo
Texto publicado no jornal da S. C. M. do Cartaxo.



14 janeiro 2013

PAPEL

Ofereceram-me, há alguns anos, um pequeno bloco de papel de arroz que conservo intacto. É um material de cor crua, macio, sedoso, semi-transparente, que deixa ver, a espaços irregulares, as fibras da planta de que foi fabricado. Retiro-o da gaveta com o intuito de nele escrever ou desenhar, mas acabo sempre por desistir, receosa de que, o que quer que produza, lhe diminua a beleza.
Como se percebe, gosto de papéis, de os tocar, avaliando as texturas, de os dobrar e desdobrar, de os enrolar, de os recortar, de neles imprimir pensamentos, formas ou cores.

Vivemos, de há muitos séculos, «embrulhados», por assim dizer, mesmo quando ainda não existia o papel e era em blocos de argila, seca ao sol ou cozida, que os homens gravavam as leis que regulavam a vida em sociedade, os mitos que lhes conferiam a identidade, enquanto povos, a poesia que os diferenciava, enquanto indivíduos.

No Egito antigo, nas margens do Nilo, crescia o papiro, a planta de cujas fibras se teceram as primeiras folhas a que podemos, pela funcionalidade, pela configuração, pela maleabilidade, pela delicadeza, pela facilidade de escrita que consentem, chamar «papel». A biblioteca de Alexandria guardava – guarda ainda – milhares de rolos de papiro, livros e livros sobre os mais variados temas. Com idêntica importância na Antiguidade, a biblioteca de Pérgamo, na Anatólia (Ásia Menor), há muito desaparecida, também encerrava tesouros de literatura, em rolos de papiro que importava do Egito, o fornecedor do produto na bacia mediterrânica. Fosse porque a procura superava a oferta, fosse porque existisse, de alguma forma, rivalidades entre estas bibliotecas, o certo é que Pérgamo deixou de receber do Egito o suporte para os seus registos escritos. Caso dramático, como se pode imaginar. Mas, porque as necessidades aguçam o engenho, eis que surge um novo material, mais resistente, que haveria de ter longevidade bastante para chegar aos nossos dias e ainda ser usado, em situações restritas de afirmação do poder: o pergaminho.

O pergaminho deve o seu nome à cidade onde terá sido inventado, ao que se diz, por um cidadão de nome Hirodicus. A sua origem é animal; trata-se da pele de animais jovens – cabra, cordeiro, camelo, vitelo – que, depois de curtidas e longamente preparadas, em fases sequenciais, ficam aptas para nelas se poder escrever e pintar. Este material, muito caro, por causa da morosa preparação, fez com que os livros fossem um artigo de luxo, só acessível a muito poucos.
Valeram-nos, então, os chineses, povo muito industrioso que inventou, no século I da nossa era, o papel, cozendo, tratando e laminando fibras vegetais e trapos. As técnicas foram sendo melhoradas e simplificadas e o papel produzido na China «viajou» até à Índia onde os árabes o conheceram. As caravanas transportaram-no pelo mundo, então, conhecido. Assim, chegou à Europa. No caso da Península Ibérica, o local de difusão foi a cidade de Fez, em Marrocos, onde se implantaram florescentes manufaturas de papel na Idade Média.

O linho, o algodão, o cânhamo, a folha de bananeira e, mais recentemente, o pinheiro e o eucalipto são as matérias-primas para os diferentes tipos de papel, hoje produzidos de forma industrial, em larga escala.

Muita coisa mudou no mundo; mas, o nome do suporte sobre o qual agora escrevo, não renega a família de onde provém: papiro.

Caro leitor: que papel tem o papel na sua vida?
Não, não pense nisso, nos papéis que a burocracia nos impõe! Esses só complicam e nos complicam com os nervos! Também não me refiro ao papel-moeda, produto rarefeito, que não é chamado à conversa.
Eu queria, apenas, perguntar, se os papéis lhe fazem companhia, que lugar lhes dá, como são as vossas relações…
Por mim, como já adivinhou, não os dispenso.

Maria Amélia de Vasconcelos
Texto publicado no jornal da S. C. da M. do Cartaxo.

TRONCO DE EUCALIPTO


Refúgio de gnomos


16 dezembro 2012

PRESÉPIO

A tradição indica que, no primeiro domingo do Advento, o presépio esteja armado. Presépio – que quer dizer estábulo – é uma palavra antiga que, ao contrário de muitas outras, não sofreu alteração de sentido ao longo do tempo. O seu sentido foi, porém, alargado e enriquecido com a natividade de Jesus, de modo que, quando hoje dizemos «presépio» referimo-nos a uma cena ímpar que terá ocorrido num lugar destinado ao resguardo de rebanhos. O conteúdo, real e simbólico, desta palavra comporta, desde então, uma leitura multifacetada, conforme os saberes e as crenças de quem a faz.

Na nossa cultura cristã, o presépio é a recriação visual do nascimento do Menino-Deus, numa data fixada, por aproximação, mais ou menos imperfeita, para os reais acontecimentos.

É o estábulo, o cenário da história, por assim dizer, que primeiro se deve instalar. E pode ter o aspeto de uma arribana, ou figurar umas ruínas altaneiras, vestígios de castelo, à maneira romântica, ou ser uma simples gruta, forte possibilidade, considerando a orografia ondulante e o clima seco e desolado da Palestina. Depois, irão acrescentar-se as figuras: Maria, José, o Menino, os pastores, e, por último, os magos. Dito assim, parece um quadro natural e terreno, não fora a presença dos que empreenderam longas viagens para virem honrar um rei, aqueles sábios que estudavam os astros e que foram conduzidos até Belém por uma estrela. Antes, ainda, do tributo destas personagens de vulto, tinham vindo ao presépio os humildes pastores, primeiras testemunhas de um acontecimento transcendente. No meio da noite fria, dormindo junto aos rebanhos, foram despertados por um coro de anjos, mensageiros do céu; assim conheceram o local onde o Messias nascera. E correram a adorá-Lo.

Desde o século III da nossa era que são referidas peregrinações a Belém. Mas foi em 1223 que São Francisco de Assis recriou, numa floresta de Greccio, perto da sua cidade, o nascimento de Jesus. Mandou moldar em argila as figuras humanas, tomou um burro e uma vaca e convidou os seus concidadãos para uma missa fora da igreja, na noite de Natal. Nesse cenário e com esses adereços, o Santo fez, de forma viva e ao alcance do entendimento dos presentes, a catequese da Natividade.

As representações do presépio constituíram, desde cedo, temas muito tratados também na pintura.
Na época do Renascimento, as casas nobres da Europa possuíam os seus presépios, verdadeiras obras de arte. Em 1567 está documentado que Constanza , duquesa de Amalfi, mandou fazer um rico presépio com 116 figuras. Em Portugal, no século XVIII, alguns escultores conceberam e moldaram presépios de muito valor. Dois desses artistas – Machado de Castro e António Ferreira – deixaram obras que ainda hoje podemos, felizmente, admirar.
A arte popular mantém vivos os tradicionais bonequinhos de Barcelos e de Estremoz que continuam a produzir-se e a serem apreciados. Às figuras centrais foram-se acrescentando outras: as lavadeiras, os moleiros e os seus moinhos, o povo, no seu labor, casinhas, fontes, poços, pontes…, enfim, elementos que compõem a paisagem rural de um passado (?) não muito distante.

O escritor brasileiro Jorge Amado descreve, no seu romance «Gabriela, Cravo e Canela», um presépio realizado por duas velhas senhoras, trabalho de um ano inteiro, exposto durante a quadra natalícia à apreciação de toda a vila. Era um presépio alargado em cada ano, pois as senhoras iam-lhe acrescentando imagens modernas de todo o tipo, incluindo recortes de revista colados em cartão; as vedetas da época – atores, cantores, literatos, políticos – todos podiam ocupar o seu lugar na representação.

E, pensando bem, não poderá, cada um de nós, tal como somos, caber no Presépio?
Fica a questão. A resposta terá de ser, como se compreende, individual.

Feliz Natal para todos nós.

Maria Amélia de Vasconcelos
Texto publicado no jornal da S. C. da M. do Cartaxo.

17 novembro 2012

NÚVENS

Em Portugal, qualquer estação do ano pode ter dias de céu nublado. Este ano de 2012 foi pobre de chuvas mas rico de nuvens, mais ou menos estéreis, que não cumpriram o que os homens delas requerem: que lhes dêem água, a água líquida que mata a sede, e a da rega, a que encharca a terra que os alimenta. As nuvens, que nos pareciam carregadas, cobrindo o céu, varria-as o vento, a seu gosto, para longe dos campos que se iam ressequindo até ao nível da grande carência hídrica que afligiu todo o país. Mesmo os cúmulos, os grande castelos que apresentam formas assombrosas limitando o horizonte, esses gigantes grossos de chuva, desfizeram-se em névoa ou partiram, a desaguar de outros céus.

Neste outono que vivemos têm surgido, felizmente, nuvens esforçadas e benfazejas cuja ação dispersou as poeiras do ar e já fez reverdecer algumas plantas.

Noutro plano, o social, as nuvens prenunciam-nos tormenta.. É pesado o céu que nos cobre, sem rasgos de azul que nos confortem. De todas as nuvens que pairam, as mais ameaçadoras, a meu ver, são as do desemprego. Todos os dias encerram empresas. Todos os dias aumenta o número de desempregados, uma cifra já muito alta que não dá mostras de querer diminuir. O drama das famílias às quais, faltando o salário, faltam todos os recursos para poderem subsistir, é uma dor a que não ficamos alheios. As instituições que têm como missão socorrer os mais desprotegidos fazem o que podem; na verdade, vão mais além do que aquilo que podem pois, também elas, vivem tempos de vacas magras, traduzidos na escassez dos meios de que dispõem para ajudar. Estamos perante a situação a que os gregos antigos, os pais do teatro, chamavam «tragédia». Vivia-se uma tragédia quando um mal ultrapassava a esfera do privado – e era um drama – e se alargava ao coletivo, com consequências para toda uma nação.

Por ora, não se vislumbram abertas neste céu carregado que pesa sobre a Europa. Porém, a esperança obriga a que continuemos de olhos erguidos, não propriamente «nas nuvens», como quem se distancia do real, num deslumbramento sem causa, mas atentos aos sinais que, não sabemos quando, hão-de alentar-nos e apontar-nos caminhos se salvação, enquanto povos.

E, porque acima falámos de esperança, convém lembrar que, e são registos da História, os tempos difíceis são férteis em avanços das ciências, das tecnologias, das artes, incluindo a arte de bem governar.
E, porque este texto tem como título «Nuvens», o termo, no singular, aplica-se, agora, a uma nova técnica de guardar e disponibilizar informação na Internet. Esta técnica permite aceder, mediante um código, aos dados armazenados, a partir de qualquer local, desde que se disponha de um computador. Para este procedimento, diz-se que a informação se encontra guardada na «nuvem».
É um facto: as palavras são múltiplas nos seus significados. Alguns desvanecem-se ou alteram-se com o passar do tempo; outros, reinventam-se com a frescura de um nascimento.

Maria Amélia de Vasconcelos
Texto publicado no jornal da S. C. da M. do Cartaxo.

15 outubro 2012

MILAGRES

«O Poeta e o Herói são dois milagres; contradizem a Natureza, como duas pedras que voassem.»
Teixeira de Pascoaes (1877-1952)

Vivemos tempos difíceis. Escrevo no plural, nós, pois que me refiro não apenas aos que partilham a mesma identidade nacional, a mesma pátria, que é como quem diz, o solo, o ar, a língua, os costumes, as virtudes e os vícios. Este «nós» abrange a nossa pátria e as pátrias alheias, todas contaminadas por uma degenerescência global que lhes é comum: a avidez pelo lucro, lucro bruto, obtido a qualquer preço, sem ressalva das margens, as de natureza comercial e as de natureza moral, sendo que estas eu considero como leis naturais, semelhantes às que regem o reino animal e o reino vegetal, indispensáveis para uma permanente auto-regulação das espécies.

O lucro desenfreado não se fica pela obtenção de dinheiro. Visa, ao mesmo tempo, conquistar o poder. Associados, dinheiro e poder, ou a inversa, dominam o mundo, estabelecem leis iníquas que esmagam os povos e que sufocam quaisquer tentativas, individuais e coletivas, de alteração do sistema, como seja o estabelecimento de paradigmas sociais e económicos equitativos para os cidadãos.

Tendo vivido duas guerras mundiais e assistido a convulsões políticas e sociais de ordem vária, Teixeira de Pascoaes vislumbrou nos poetas e nos heróis a salvação para os males do seu tempo. Poetas e heróis são milagres, diz-nos este poeta da nossa língua. Têm a dureza da pedra e, tal como as pedras, podem ser armas de arremesso, atingir alvos, mas, também, conferir estabilidade às construções que se querem bem firmadas. Possuem, em contraponto, a leveza de penas, voam, elevam-se, chegam longe e, com a gentileza que lhes é própria, imprimem, onde tocam, marcas de outra índole, marcas no espírito, a que poderemos chamar cultura, ou, até, civilização.

Tempos difíceis necessitam de milagres. Os milagres e a esperança de que ocorram são as duas faces da mesma moeda que é o acreditar que os poetas e os heróis são capazes de traçar, com as palavras certeiras e as ações generosas o caminho de redenção para a sociedade. Os poetas, alimentados pelo pensamento e pela alma; os heróis, sustentados pelo arrebatamento e o coração, estão entre nós e empreendem os seus esforços quotidianamente. Porquê, então, o atual estado das coisas? Porque é que não nos habita uma humanidade mais consciente dos deveres que lhe assistem?

Tenho, para mim, que este é um tempo para o recrutamento de «pedras» que voam, de espíritos com a coragem de recusar os modelos de sociedade que nos são impostos e com imaginação para ensaiar novos modelos. Estes recrutas são poetas e heróis que ainda se não reconheceram como tal. No dia em que despertarem, hão-de engrossar as hostes da mudança. Que não demore esse acordar.

Maria Amélia de Vasconcelos
Texto publicado no jornal da S. C. da M. do Cartaxo.

18 setembro 2012

CULINÁRIA

O Jornal da Santa Casa da Misericórdia do Cartaxo apresenta, nas suas páginas, uma rubrica de culinária.
As receitas são recolhidas entre os utentes da instituição, particularmente as senhoras, que guardam na memória, ou em caderninhos manuscritos, os pratos que preparavam em suas casas, saberes que generosamente partilham com os leitores. Essas receitas são, em suma, testemunhos das vivências de uma nação que soube adicionar à sua dieta ancestral alimentos ou condimentos usados noutras culturas com as quais entrou em diálogo.
A arte da culinária tradicional portuguesa reside na utilização, na justa medida, dos ingredientes obtidos localmente, aos quais se adicionam pitadas de exotismo que os tornam apetecíveis e únicos. Exemplos desta apropriação são às centenas. Lembremos, tão só, a canela, que se impôs na doçaria, e a pimenta, que espevita os aromas dos pratos salgados. Aliás, no âmbito das conservas de carne – os enchidos – os países asiáticos, a África e o Brasil desvendaram-nos uma vasta gama de produtos sem os quais não se alcançariam os sabores que tanto apreciamos, nós e os estrangeiros que têm a sorte de provar a genuína cozinha portuguesa. Afinal, que seria de um chouriço sem o caráter que os cominhos, a noz moscada ou o cravinho marcadamente lhe conferem?
Mas nem só de exotismos vive a nossa comida. No nosso país abundam as plantas aromáticas: hortelã da ribeira, louro, manjericão, funcho, tomilho, mostarda, e outras espécies que, desde tempos imemoriais, aprendemos a usar, ou na alimentação ou na farmacopeia, como mezinha.
Nos tempos atuais dispomos de grande variedade de alimentos, os naturais e os processados industrialmente: congelados, secos, em calda, em pó…A escolha é vasta e depende do gosto, da carteira e do bom senso de cada consumidor, isto é, a consciência de que o valor nutritivo de um alimento é tanto maior quanto mais natural ele se apresenta, é um fator a ter em conta na hora da decisão.

Relendo este escrito, verifico que talvez tenha entrado, sem pedir licença, na rubrica «Comidinha da Avó». Já que assim foi, e para não voltar atrás no tema da presente crónica, reforço a intromissão e deixo, aqui, uma receita simples e deliciosa que nem sequer necessita de lume para a sua confeção. Tomamos um abacate, fruto tropical oriundo da América, parecido com uma grande pêra. Esmagamos a polpa, juntamos um pouco de sal, sumo de limão, alho e coentros muito picadinhos. Obtemos uma pasta, excelente para barrar o pão ou bolachas e à qual se chama, na América latina, «guacamole». Se, em vez destes ingredientes, juntarmos à polpa do abacate açúcar e canela, temos uma sobremesa de fazer cantar os anjos.

Termino as Palavras Roladas de hoje prometendo, a mim mesma, não voltar à escrita em hora que não me parece ser a mais indicada para tal… É que, antes do almoço, cai-me este exercício na fraqueza e resvalo para a culinária.

Maria Amélia de Vasconcelos
Texto publicado no jornal da S. C. da M. do Cartaxo.