14 abril 2012

ESPÍRITO

Fluir como o rio manso
nas águas rijas de Abril.

Inundar as margens altas
sem limites de expansão.

Fecundar como mosto rubro
a planície da razão.

Nascer como golpe de luz
apontado ao mais profundo.

Como um vulcão revolver
o secreto interior.

Como o ar entre os escombros
Permanecer.
Maria Amélia de Vasconcelos

13 março 2012

ARTE

Haverá uma dúzia de anos – é incrível como o tempo se escoa, quase sem darmos por isso! – assisti, no teatro Villaret, em Lisboa, a uma peça de teatro, com encenação e interpretação do admirável António Feio, na qual participavam, também, outros atores, todos brilhantes, aliás.
A questão que se colocava em cima do palco, com a cumplicidade de um público completamente rendido, era o conceito de Arte. O adereço principal, o fulcro da discussão, era um quadro sem cor que, por ser tão importante no cruzar das ideias, era, ele mesmo, uma personagem.

Depreendia-se do enredo que a tela teria custado bom dinheiro ao proprietário da casa, homem a meio da vida, que construíra a pulso uma carreira e que começara, há pouco, a investir em obras de arte. Os seus amigos, materialmente menos abastados, com percursos diferentes, tendo, cada um, uma visão própria acerca do que é essencial ao homem, vivendo os seus dilemas e contradições internas, foram convidados a apreciar o quadro e as suas apreciações coincidiram, apenas, num ponto: o quadro era branco, totalmente branco. O dono lançou-se na defesa da obra, para a valorizar. Apontou gradações e contrastes de branco, texturas, sugestões de contornos e volumes, incidências de luz, perspetivas, alterações delicadas, conforme fosse visto de tal ou tal ângulo, e, é claro, colocou num pedestal a assinatura do autor, um mestre. Esforço vão. Não obstante o vigor da argumentação, para os outros o quadro era branco, branquinho imaculado, sem mais, ponto final.
No texto havia, embrulhados na discussão, aparentemente fútil, vários conceitos importantes e a sociedade que os elabora ia sendo desnudada com a irreverência própria de uma comédia, bem articulada e sem moralismos.

Veio-me à memória esta peça - Arte - quando hoje, através do noticiário da Antena 1 tomei conhecimento que uma conceituada firma internacional de leilões mandou a Portugal alguns dos seus peritos para avaliarem gratuitamente (esta é uma palavra muito em desuso, diria, mesmo, a tender para o limbo do esquecimento) objetos de arte, pertença de particulares.

A peça radiofónica incluía algumas breves entrevistas com pessoas que tinham recorrido, ou iam recorrer, ao parecer dos experts.
Apenas duas pessoas disseram ser proprietárias dos bens que levavam para avaliação e assumiram que talvez os entregassem para leilão. As outras optaram por evasivas: «é um quadro que está na posse de um amigo lá da minha terra…», «uma amiga pediu-me que...», «não preciso de vender mas gostava de ter uma ideia acerca do valor…».
A leiloeira acomodou os funcionários num hotel de uma zona nobre, nos arredores de Lisboa, de acordo com a categoria dos potenciais clientes, e como o exige a categoria da própria empresa.

Parece evidente que um quadro absolutamente branco, como aquele de que falámos acima, não seria aceite para leilão, embora, creio, não sejam desdenhados certos tons de branco, como o branco do marfim, o dos metais preciosos, o de certas pedras, ou o das pérolas. Aí sim, vale falar-se de gradações, de diferenças na captação da luz, de qualidades artísticas e artesanais, de patines e de autorias e escolas, se possível.

Este pequeno texto deveria ficar por aqui. Mas não é que, tão a despropósito, me ocorreu a palavra «crise»? Sim, aquela crise que a História há-de analisar, aquela que anda em todas as bocas, a nacional, a europeia, a mundial, a da economia e das finanças e, até, a dos costumes. Convenhamos: este parágrafo está a mais. Não se entende bem, de facto ,o que é que a Arte, a crise e a oportunidade de negócios possam ter em comum…

Nota final: Caro leitor, se quiser, pode ignorar, mesmo, o último parágrafo e não tem que apresentar justificações. Ora essa! Era só o que faltava!

Maria Amélia de Vasconcelos
Texto publicado no jornal da S. C. da M. do Cartaxo.

15 fevereiro 2012

RUMOR

Gosto desta palavra.
Agrada-me quando a oiço, quando a pronuncio, quando a penso É assim, no singular, que o conceito se torna imagem, com contornos auditivos e visuais. Diria, até, se não fosse abuso ou exagero, que os outros sentidos também conferem dimensão à imagem de «rumor», isto é, a palavra traz um odor fresco, um tatear de seda, um sabor de um fruto a estalar na boca. Reconheço que poderá parecer abusivo convocar os cinco sentidos tradicionais para definir uma palavra simples, apenas porque a acho musical e delicada, e uma das mais bonitas da nossa língua. Os leitores podem discordar, é claro; nem por isso «rumor» descerá na minha tabela de preferências.

Escrito no plural, «rumor» é detestável. Ouvir rumores incomoda-me muito. Os rumores significam boatos e os boatos são gotas de veneno, mesmo que misturadas com apetecíveis manjares. Podem não matar mas causam sempre danos. Os rumores/boatos devem ser tão velhos quanto as sociedades e torna-se impossível, por mais que recuemos no tempo, descobrir o grupo humano que primeiro se deu à prática do «diz que diz». Quem sabe? Talvez o Paraíso fosse aquele lugar abençoado tão somente por não haver condições para os rumores fazerem caminho. Entre Adão e Eva não podia caber a maledicência que só a sociedade pode gerar.

Os rumores propagam-se quase à velocidade da luz, nesta era de meios de comunicação tão rápidos que colocam a notícia ao alcance de um «clique» nos quatro cantos do mundo. A aldeia global em que vivemos debita informação e desinformação, ao mesmo tempo, uma e outra contendo opiniões das «fontes bem colocadas», misturando dados objetivos com fantasias, suposições, interpretações intencionais cujo alcance nos escapa. Nós, os consumidores de informação, não dispomos dos instrumentos que nos permitiriam separar os factos das opiniões que lhes retiram nitidez ou lhes acrescentam pormenores que os desfiguram. Contra a nossa vontade, consumimos, pois, também, rumores, recebemos a nossa quota-parte do veneno. Por causa dos rumores, podem construir-se ou destruir-se reputações, quer estejam em causa os indivíduos ou os grupos, e nem os países escapam aos seus malefícios, alimentados por preconceitos sem fundo de sustentação, apoiados em coisa nenhuma, nascidos não se sabe onde, propagados por não se sabe quem.

Os rumores não têm rosto. Por isso, não necessitam de máscara para se ocultarem. Mas não são cegos nem aleatórios: escolhem a vítima e vão tão longe quanto podem para a abater.

Meditando sobre os prejuízos que os rumores acarretam, tenho pena de que a palavra que é título deste texto tenha, no seu plural, um tão vil significado. Vale , aqui, o ditado: «no melhor pano…».

Maria Amélia de Vasconcelos
Texto publicado no jornal da S. C. da M. do Cartaxo.

17 janeiro 2012

IMPORT/EXPORT

Haverá, por certo, quem não aprecie flores. Gostos e interesses não se discutem, obviamente. No que me toca, não conheço ninguém que não goste de plantas, seja pelo seu porte, pela folhagem, pelas flores ou pelos frutos. Isto tanto vale para as espontâneas como para as cultivadas, sujeitas, estas, a melhoramentos genéticos, a tratamentos científicos e a cuidados de quem sabe do que está a tratar ou, melhor ainda, a desvelos de quem as estima, deveras.
As plantas são um produto transacionável, como qualquer outro. As flores constituem um negócio em alta, particularmente em certas épocas do ano.

No outono passado, necessitei de comprar uma rosa branca, em memória de um ente querido. Entrei numa florista, pela manhã, e não vi exposto o que pretendia. Ainda assim, perguntei à vendedora se tinha rosas brancas. Respondeu-me que talvez tivessem acabado de chegar e apontou-me uma meia dúzia de caixas de cartão, com cerca de um metro de comprimento, empilhadas atrás do balcão. Começou a abrir as embalagens e ia pondo a descoberto molhos, bem atados, de flores. A terceira ou quarta caixa continha um molho de rosas brancas, com caules grossos e longos.
Enquanto foi decorrendo a busca, fomos conversando. Fiquei a saber que as flores tinham chegado ao aeroporto de Lisboa naquela mesma madrugada e que estavam a ser distribuídas, àquela hora, por várias lojas, pelo país fora.
Esta informação fez-me pensar, de imediato, na ilha da Madeira, a pátria das flores portuguesas, desde as mais comuns às mais exóticas. Para confirmar o que julgava ser um facto, lancei um olhar à tampa da caixa, pousada sobre o balcão. Com espanto vi as etiquetas que revelavam que a encomenda fora enviada da Colômbia. Retomei o diálogo, à espera que me fosse dito que vira mal, que o produto era nacional e que «Colômbia» era uma marca, ou o nome de uma estufa, enfim, qualquer coisa que me levasse a descrer estar perante uma importação de tão longínquas paragens. A Holanda estaria no meu horizonte de expetativas pois já comprei muitas flores criadas nos Países Baixos, mesmo antes da União Europeia. Mas, a Colômbia? Rosas, assim, tão fora do meu entendimento?

A rosa saiu, magnífica, das mãos da florista, salpicada de verdura, fresca como se tivesse sido colhida ainda há instantes.
Eu pergunto-me qual terá sido o custo verdadeiro daquela rosa, qual o valor dos salários pagos a quem trabalha nas estufas da Colômbia… Pergunto-me mais: quanto custa, em termos da qualidade do ar que respiramos e dos recursos naturais, transportar rosas da América para a Europa, não o preço de uma rosa, é claro, mas, por extensão, quanto custam as toneladas de produtos que poderíamos obter mais perto…

O meu rol de questões é longo. E ocorre-me sempre mais uma, ou outra, quando sigo o rasto de um qualquer avião de longo curso, dos muitos que cruzam os céus de Portugal.

Maria Amélia de Vasconcelos
Texto publicado no jornal da S. C. da M. do Cartaxo.

01 janeiro 2012

O SOBERANO FALA À NAÇÃO

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15 novembro 2011

PAI DOS VELHACOS

Abre-se um jornal, liga-se a rádio, a televisão, a internet, e as notícias que nos chegam dão que pensar. Todos os dias nos são ditas palavras inquietantes: empresas que cerram portas, trabalhadores no desemprego, impostos e taxas em alta, diminuição do valor das exportações, metas de bem-estar social que não serão atingidas, redução das ajudas àqueles que delas necessitam para viver, aumento da criminalidade, enfim, relatos de uma situação global em tons de cinzento escuro, à qual ouvimos chamar «crise».

Tal como numa pintura, analisando o quadro, havemos, por força, de encontrar os pontos de luz: um cessar-fogo numa das muitas guerras em curso, uma descoberta científica relevante, um avanço técnico, uma ou outra empresa que se expande, uma individualidade que se destaca numa qualquer área e que poderá servir de farol para quem navega à vista.

Esses pontos de luz são essenciais para que não mergulhemos nas trevas da desesperança. São eles que nos ajudam a caminhar, iluminando objetivos bem definidos e alcançáveis, ainda que os passos sejam miúdos, com paragens, até, para podermos comprovar que marchamos em terreno firme.

Os povos, como os indivíduos, sofrem revezes ao longo da sua história. Portugal tem sofrido vários. As guerras, pestes, fomes, catástrofes naturais, crises políticas, nunca alcançaram, porém, uma dimensão tal que fizessem perigar a identidade nacional. Mesmo o século XVI, o século das índias e dos brasis, foi fértil em infortúnios de vária ordem, incluindo uma certa desagregação do tecido social, com a ascensão rápida de oportunistas que tiveram êxito em empreendimentos à margem do que era consentido, e com o abandono dos campos, na mira de aventuras marinheiras, ou outras, que a maré trouxesse à praia. Lisboa e o Porto aumentaram a sua população à custa de jovens sem ofício nem recursos que chegavam do interior em busca de vida fácil. Eram os «velhacos», designação que hoje achamos pesada, pouco conveniente para se aplicar a gente jovem, mais adequada para homens feitos e vividos. Sem poiso certo, ao acaso, roubavam para comer e, isolados ou em bando, provocavam desacatos e constituíam um perigo para os residentes. Para pôr cobro à situação, foi criado o ofício de «Pai dos Velhacos» nas duas principais cidades, cargo desempenhado por magistrados que tinham como obrigação coibir a vadiagem. Como? Colocando os mariolas em casas abastadas onde ficavam a servir ou em oficinas onde aprendiam um ofício, o que incluía, em ambos os casos, cama e mesa, conforme o uso da época.

O cantor-autor Fausto, no seu álbum «Por este Rio Acima», inclui uma canção – O barco vai de saída – em que se repete, no refrão: «que vida boa era a de Lisboa…». Entendo esse poema como sendo o relato de um «velhaco» que, sem emenda, não teve outro remédio a não ser embarcar numa nau ou numa caravela, rumo ao desconhecido.

Não sei quanto tempo duraram estas medidas, nem sei que resultados alcançaram. Nos sistemas democráticos modernos, elas não podiam, sequer, ser consideradas, pois não se admite o trabalho compulsivo.

Em Portugal, por causa da «crise», faltam os empregos. É uma realidade muito dura, geradora de desalento, quando as estatísticas nos informam que a percentagem do desemprego já ultrapassa os 12%. Porém, trabalho não falta. Todos sabemos que há muito trabalho a fazer e que sempre é possível encontrar uma tarefa adequada para quem tem vontade de a realizar. O problema reside na retribuição, magra que seja, que é devida a quem trabalha, isto é, o dinheirinho, esse «velhaco» que partiu, vadiando, para parte incerta.

Se os leitores souberem onde se acoita esse manhoso, não deixem de informar as autoridades.

Maria Amélia de Vasconcelos
Texto publicado no jornal da S. C. da M. do Cartaxo.

19 outubro 2011

RELATIVIZAR

Há poucas semanas aconteceu, em Portugal, um acidente numa mina, em consequência do qual um jovem perdeu a vida. Contava dezanove anos, segundo a notícia, e teria negligenciado os cuidados que a situação laboral requeria, ainda segundo a notícia, que dava voz à justificação emitida pela entidade patronal.
Qualquer acidente tem origem em, pelo menos, uma causa; é um «sucesso repentino ou casual» - assim ensina o dicionário – isto é, ocorre sem aviso e atinge, aleatoriamente, vidas e bens, com maior ou menor dano.

Considero muito dura a profissão de mineiro, tanto ou mais arriscada que a de pescador, pois é agravada por não decorrer ao ar livre e por só ter como fundo sonoro o martelar surdo de engenhos mecânicos.
Ser mineiro comporta muitos riscos, no imediato e no futuro, requer maturidade e consciência dos perigos.

Neste nosso tempo em que é aceite que a juventude se prolonga para além dos trinta anos, pergunto-me qual terá sido a motivação que terá levado um rapaz de dezanove anos a trabalhar numa mina. O emprego que estava mais à mão, por necessidade económica ou por tradição familiar? A falta de oportunidades noutra área? A urgência de juntar uns euros para concretizar um sonho, talvez a compra da primeira moto? São suposições, apenas, sem nenhuma relevância; de concreto sabemos que era jovem, trabalhava como mineiro e terá morrido por descuido pessoal.
Os familiares, os amigos, os colegas de trabalho, recordá-lo-ão enquanto a memória for possível. De imediato, passou a constar de uma lista, a das vítimas de acidente, e a contar para a estatística; e ter dezanove anos e ser mineiro, as suas circunstâncias, não entram nas estatísticas.

Outra história se haveria de ouvir contar, na comunicação social, e ficar vastamente documentada, se um qualquer acidente tivesse atingido, mesmo sem desenlace fatal, um futebolista. Todos desejamos que não ocorram acidentes e que, a ocorrerem, não ceifem vidas. Ah, mas um desaire com um futebolista tem consistência, é notícia nacional que justifica longos artigos escritos, parangonas destacadas – passe a redundância - , entrevistas, opiniões de especialistas nos canais radiofónicos e televisivos. Mais: é uma notícia que permanece em alta durante dias, que mantém informada, com pormenor, uma considerável faixa da população, a qual, ao que parece, não se questiona acerca do material que lhe vai sendo servido.

Tenho o maior respeito por todos os trabalhadores que executem bem as tarefas que é suposto fazerem, sejam os profissionais da mineração, sejam os profissionais do futebol. Admiro muito os desportistas que, com dedicação, consagram o seu lazer e horas e horas do seu descanso, à modalidade da sua eleição, sem outra paga a não ser a alegria da competição leal.

Todos têm lugar e valor na sociedade, são elos da mesma cadeia que é necessário manter íntegra. Por isso, não é possível relativizar: cada vida que se perde vale por si, independentemente do valor de cada uma das outras.

Maria Amélia de Vasconcelos
Texto publicado no jornal interno da S. C. da M. do Cartaxo.