Palavras Roladas é um espaço de simples reflexão acerca das palavras que usamos na linguagem de todos os dias e, porventura, de outras, menos gastas, quando convier. As imagens visuais hão-de infiltrar-se, seguras da sua eficácia. Palavras roladas, como os seixos que o vento e o movimento das águas afeiçoaram, como frutos. Então, os olhos encontram-nos e a mão recolhe-os e aquece-os um momento para, mais além, os devolver à praia onde outros olhos e outras mãos os hão-de descobrir e dar calor.
14 maio 2012
15 abril 2012
SUBSÍDIOS
«Sub» é um elemento de formação de palavras que designa a posição de «abaixo», «ajuda», «escondido», «dependência, «fim de escala». Tem, como oposto, «sobre», aquilo que se coloca acima, que sobressai, que é aumento ou acrescento.
Aos portugueses, desde há umas décadas, foram concedidos subsídios, consagrados na Constituição, a título de compensação, casos do subsídio de nascimento, de desemprego, de funeral, ou de estímulo, como é o caso de certas produções agrícolas ou de atividades industriais. De entre todos os subsídios, dois destacam-se pela abrangência, em números, dos que os recebiam, e pela regularidade com que eram pagos. Refiro-me aos subsídios de férias e de Natal, pagos aos trabalhadores por conta de outrem, os quais correspondiam, em valor, a dois meses de remuneração.
Era um dinheirinho com que os portugueses contavam para fazerem face a despesas que o salário mensal não podia comportar, os portugueses das classes média e baixa, é bom de ver. Com esse dinheiro gozavam – aqueles que podiam – uns dias de férias, compravam os livros escolares para a prole, iam ao dentista, substituíam um eletrodoméstico avariado, pagavam os seguros, enfim, ajeitavam as suas necessidades a esse rendimento extra que, na verdade, consideravam como fazendo parte integrante da remuneração devida pelo seu trabalho.
Nas condições financeiras em que o nosso país se encontra, esses dois meses deixaram de ser pagos a muitos trabalhadores. Ninguém duvidará dos enormes transtornos que as famílias sofrerão com esta diminuição do rendimento, para não falar, porque não é esse o tema deste escrito, da situação dos desempregados, números todos os dias crescentes, ao ritmo da angústia de quem se preocupa com a situação social portuguesa.
Quando o sufoco do país abrandar – e esse dia há-de, por força, chegar – os dois subsídios não voltarão a ser pagos, terão sido banidos para sempre, quase posso jurar. A sociedade, sempre em mutação, encontrará, assim o espero, outros instrumentos para remunerar a população, a ativa e a reformada, pelo seu desempenho, sem recurso a pagamentos que se designem «sub qualquer coisa»; basta, tão somente, que a cada um dos doze meses corresponda o salário, ou pensão, justo. Que se mantenha uma ajuda (bónus? prémio?) quando nasce uma criança, uma ajuda para as despesas com os estudos dos jovens (bolsa? empréstimo?) , uma ajuda para um funeral, isso é uma partilha de responsabilidades entre a esfera privada e o Estado.
Querer compensar com o valor de dois meses de salário a magreza da remuneração mensal parece-me um remendo que não é remédio, que não dignifica quem o recebe pois assenta em valores calculados por defeito.
Não gosto de subsídios, como já se notou. Prefiro a justa paga que, para além da sua justeza, poderá ser pedagógica, na medida em que poderá contribuir para que os orçamentos familiares se construam com dados reais, sem ocas esperanças em futuras entradas de um dinheiro que, desde logo, já deveria estar a ser repartido.
Maria Amélia de Vasconcelos
Texto publicado no jornal da S. C. da M. do Cartaxo.
14 abril 2012
ESPÍRITO
Fluir como o rio manso
nas águas rijas de Abril.
Inundar as margens altas
sem limites de expansão.
Fecundar como mosto rubro
a planície da razão.
Nascer como golpe de luz
apontado ao mais profundo.
Como um vulcão revolver
o secreto interior.
Como o ar entre os escombros
Permanecer.
Maria Amélia de Vasconcelos
nas águas rijas de Abril.
Inundar as margens altas
sem limites de expansão.
Fecundar como mosto rubro
a planície da razão.
Nascer como golpe de luz
apontado ao mais profundo.
Como um vulcão revolver
o secreto interior.
Como o ar entre os escombros
Permanecer.
Maria Amélia de Vasconcelos
13 março 2012
ARTE
Haverá uma dúzia de anos – é incrível como o tempo se escoa, quase sem darmos por isso! – assisti, no teatro Villaret, em Lisboa, a uma peça de teatro, com encenação e interpretação do admirável António Feio, na qual participavam, também, outros atores, todos brilhantes, aliás.
A questão que se colocava em cima do palco, com a cumplicidade de um público completamente rendido, era o conceito de Arte. O adereço principal, o fulcro da discussão, era um quadro sem cor que, por ser tão importante no cruzar das ideias, era, ele mesmo, uma personagem.
Depreendia-se do enredo que a tela teria custado bom dinheiro ao proprietário da casa, homem a meio da vida, que construíra a pulso uma carreira e que começara, há pouco, a investir em obras de arte. Os seus amigos, materialmente menos abastados, com percursos diferentes, tendo, cada um, uma visão própria acerca do que é essencial ao homem, vivendo os seus dilemas e contradições internas, foram convidados a apreciar o quadro e as suas apreciações coincidiram, apenas, num ponto: o quadro era branco, totalmente branco. O dono lançou-se na defesa da obra, para a valorizar. Apontou gradações e contrastes de branco, texturas, sugestões de contornos e volumes, incidências de luz, perspetivas, alterações delicadas, conforme fosse visto de tal ou tal ângulo, e, é claro, colocou num pedestal a assinatura do autor, um mestre. Esforço vão. Não obstante o vigor da argumentação, para os outros o quadro era branco, branquinho imaculado, sem mais, ponto final.
No texto havia, embrulhados na discussão, aparentemente fútil, vários conceitos importantes e a sociedade que os elabora ia sendo desnudada com a irreverência própria de uma comédia, bem articulada e sem moralismos.
Veio-me à memória esta peça - Arte - quando hoje, através do noticiário da Antena 1 tomei conhecimento que uma conceituada firma internacional de leilões mandou a Portugal alguns dos seus peritos para avaliarem gratuitamente (esta é uma palavra muito em desuso, diria, mesmo, a tender para o limbo do esquecimento) objetos de arte, pertença de particulares.
A peça radiofónica incluía algumas breves entrevistas com pessoas que tinham recorrido, ou iam recorrer, ao parecer dos experts.
Apenas duas pessoas disseram ser proprietárias dos bens que levavam para avaliação e assumiram que talvez os entregassem para leilão. As outras optaram por evasivas: «é um quadro que está na posse de um amigo lá da minha terra…», «uma amiga pediu-me que...», «não preciso de vender mas gostava de ter uma ideia acerca do valor…».
A leiloeira acomodou os funcionários num hotel de uma zona nobre, nos arredores de Lisboa, de acordo com a categoria dos potenciais clientes, e como o exige a categoria da própria empresa.
Parece evidente que um quadro absolutamente branco, como aquele de que falámos acima, não seria aceite para leilão, embora, creio, não sejam desdenhados certos tons de branco, como o branco do marfim, o dos metais preciosos, o de certas pedras, ou o das pérolas. Aí sim, vale falar-se de gradações, de diferenças na captação da luz, de qualidades artísticas e artesanais, de patines e de autorias e escolas, se possível.
Este pequeno texto deveria ficar por aqui. Mas não é que, tão a despropósito, me ocorreu a palavra «crise»? Sim, aquela crise que a História há-de analisar, aquela que anda em todas as bocas, a nacional, a europeia, a mundial, a da economia e das finanças e, até, a dos costumes. Convenhamos: este parágrafo está a mais. Não se entende bem, de facto ,o que é que a Arte, a crise e a oportunidade de negócios possam ter em comum…
Nota final: Caro leitor, se quiser, pode ignorar, mesmo, o último parágrafo e não tem que apresentar justificações. Ora essa! Era só o que faltava!
Maria Amélia de Vasconcelos
Texto publicado no jornal da S. C. da M. do Cartaxo.
15 fevereiro 2012
RUMOR
Gosto desta palavra.
Maria Amélia de Vasconcelos
Texto publicado no jornal da S. C. da M. do Cartaxo.
Agrada-me quando a oiço, quando a pronuncio, quando a penso É assim, no singular, que o conceito se torna imagem, com contornos auditivos e visuais. Diria, até, se não fosse abuso ou exagero, que os outros sentidos também conferem dimensão à imagem de «rumor», isto é, a palavra traz um odor fresco, um tatear de seda, um sabor de um fruto a estalar na boca. Reconheço que poderá parecer abusivo convocar os cinco sentidos tradicionais para definir uma palavra simples, apenas porque a acho musical e delicada, e uma das mais bonitas da nossa língua. Os leitores podem discordar, é claro; nem por isso «rumor» descerá na minha tabela de preferências.
Escrito no plural, «rumor» é detestável. Ouvir rumores incomoda-me muito. Os rumores significam boatos e os boatos são gotas de veneno, mesmo que misturadas com apetecíveis manjares. Podem não matar mas causam sempre danos. Os rumores/boatos devem ser tão velhos quanto as sociedades e torna-se impossível, por mais que recuemos no tempo, descobrir o grupo humano que primeiro se deu à prática do «diz que diz». Quem sabe? Talvez o Paraíso fosse aquele lugar abençoado tão somente por não haver condições para os rumores fazerem caminho. Entre Adão e Eva não podia caber a maledicência que só a sociedade pode gerar.
Os rumores propagam-se quase à velocidade da luz, nesta era de meios de comunicação tão rápidos que colocam a notícia ao alcance de um «clique» nos quatro cantos do mundo. A aldeia global em que vivemos debita informação e desinformação, ao mesmo tempo, uma e outra contendo opiniões das «fontes bem colocadas», misturando dados objetivos com fantasias, suposições, interpretações intencionais cujo alcance nos escapa. Nós, os consumidores de informação, não dispomos dos instrumentos que nos permitiriam separar os factos das opiniões que lhes retiram nitidez ou lhes acrescentam pormenores que os desfiguram. Contra a nossa vontade, consumimos, pois, também, rumores, recebemos a nossa quota-parte do veneno. Por causa dos rumores, podem construir-se ou destruir-se reputações, quer estejam em causa os indivíduos ou os grupos, e nem os países escapam aos seus malefícios, alimentados por preconceitos sem fundo de sustentação, apoiados em coisa nenhuma, nascidos não se sabe onde, propagados por não se sabe quem.
Os rumores não têm rosto. Por isso, não necessitam de máscara para se ocultarem. Mas não são cegos nem aleatórios: escolhem a vítima e vão tão longe quanto podem para a abater.
Meditando sobre os prejuízos que os rumores acarretam, tenho pena de que a palavra que é título deste texto tenha, no seu plural, um tão vil significado. Vale , aqui, o ditado: «no melhor pano…».
Maria Amélia de Vasconcelos
Texto publicado no jornal da S. C. da M. do Cartaxo.
17 janeiro 2012
IMPORT/EXPORT
Haverá, por certo, quem não aprecie flores. Gostos e interesses não se discutem, obviamente. No que me toca, não conheço ninguém que não goste de plantas, seja pelo seu porte, pela folhagem, pelas flores ou pelos frutos. Isto tanto vale para as espontâneas como para as cultivadas, sujeitas, estas, a melhoramentos genéticos, a tratamentos científicos e a cuidados de quem sabe do que está a tratar ou, melhor ainda, a desvelos de quem as estima, deveras.
As plantas são um produto transacionável, como qualquer outro. As flores constituem um negócio em alta, particularmente em certas épocas do ano.
No outono passado, necessitei de comprar uma rosa branca, em memória de um ente querido. Entrei numa florista, pela manhã, e não vi exposto o que pretendia. Ainda assim, perguntei à vendedora se tinha rosas brancas. Respondeu-me que talvez tivessem acabado de chegar e apontou-me uma meia dúzia de caixas de cartão, com cerca de um metro de comprimento, empilhadas atrás do balcão. Começou a abrir as embalagens e ia pondo a descoberto molhos, bem atados, de flores. A terceira ou quarta caixa continha um molho de rosas brancas, com caules grossos e longos.
Enquanto foi decorrendo a busca, fomos conversando. Fiquei a saber que as flores tinham chegado ao aeroporto de Lisboa naquela mesma madrugada e que estavam a ser distribuídas, àquela hora, por várias lojas, pelo país fora.
Esta informação fez-me pensar, de imediato, na ilha da Madeira, a pátria das flores portuguesas, desde as mais comuns às mais exóticas. Para confirmar o que julgava ser um facto, lancei um olhar à tampa da caixa, pousada sobre o balcão. Com espanto vi as etiquetas que revelavam que a encomenda fora enviada da Colômbia. Retomei o diálogo, à espera que me fosse dito que vira mal, que o produto era nacional e que «Colômbia» era uma marca, ou o nome de uma estufa, enfim, qualquer coisa que me levasse a descrer estar perante uma importação de tão longínquas paragens. A Holanda estaria no meu horizonte de expetativas pois já comprei muitas flores criadas nos Países Baixos, mesmo antes da União Europeia. Mas, a Colômbia? Rosas, assim, tão fora do meu entendimento?
A rosa saiu, magnífica, das mãos da florista, salpicada de verdura, fresca como se tivesse sido colhida ainda há instantes.
Eu pergunto-me qual terá sido o custo verdadeiro daquela rosa, qual o valor dos salários pagos a quem trabalha nas estufas da Colômbia… Pergunto-me mais: quanto custa, em termos da qualidade do ar que respiramos e dos recursos naturais, transportar rosas da América para a Europa, não o preço de uma rosa, é claro, mas, por extensão, quanto custam as toneladas de produtos que poderíamos obter mais perto…
O meu rol de questões é longo. E ocorre-me sempre mais uma, ou outra, quando sigo o rasto de um qualquer avião de longo curso, dos muitos que cruzam os céus de Portugal.
Maria Amélia de Vasconcelos
Texto publicado no jornal da S. C. da M. do Cartaxo.
01 janeiro 2012
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