Palavras Roladas é um espaço de simples reflexão acerca das palavras que usamos na linguagem de todos os dias e, porventura, de outras, menos gastas, quando convier. As imagens visuais hão-de infiltrar-se, seguras da sua eficácia. Palavras roladas, como os seixos que o vento e o movimento das águas afeiçoaram, como frutos. Então, os olhos encontram-nos e a mão recolhe-os e aquece-os um momento para, mais além, os devolver à praia onde outros olhos e outras mãos os hão-de descobrir e dar calor.
23 agosto 2013
20 julho 2013
FÁBULAS
Uma das mais conhecidas fábulas
de La Fontaine
é a que nos conta que, um certo dia, a Lebre desafiou a Tartaruga para uma
corrida. Sabendo que era muito mais ágil e rápida do que a opositora, a Lebre
compareceu no ponto de partida mas, como, em breve, o seu avanço era notório,
decidiu fazer uma sesta e deixou-se cair, bocejando, à sombra de uma árvore.
Quando acordou, a Tartaruga era
só um ponto escuro, lá ao longe, pertinho da meta. Recomposta do espanto, a
Lebre lançou-se a toda a velocidade, tentando recuperar o tempo perdido. Tarde
de mais, contudo, pois, quando, sem fôlego, chegou à meta, já a Tartaruga a
tinha transposto e esperava, pacientemente, ver reconhecida a sua vitória.
Não ficamos a saber se a Lebre se
irritou com o desfecho da aposta ou se tentou inventar boas desculpas para
justificar a sua derrota. O estado de espírito das personagens não é chamado
para a história. E ainda bem, pois, assim, quem conhece a fábula, pode
especular sobre que final, em sua opinião, melhor convirá, e, por assim dizer,
poderá prosseguir até onde a sua imaginação o levar, desde que não ofenda a
dignidade dos simpáticos animais que foram escolhidos para espelharem os
comportamentos humanos.
Ora, com a liberdade que nos dá
«recontar» uma história consabida, vamos trazê-la para a atualidade, mantendo
as personagens e o cenário da ação.
E ficaria como segue a velha
fábula:
Numa fresca manhã de Junho ( ou de qualquer outro mês), a Tartaruga,
que estava de férias, dispôs-se a viajar para conhecer mundo.
Achando perigosa a auto-estrada, decidiu enveredar por um caminho de
terra que atravessava uma floresta.
Pára aqui, pára ali, acercava-se de uma clareira no preciso momento em
que o seu telemóvel tocou. Atendeu a chamada um pouco contrariada pois o número
era desconhecido.
- Sim?
- Olá, comadre Tartaruga. Daqui fala a Lebre. Lembra-se de mim?
- É claro que me lembro…
E na testa da Tartaruga formou-se uma ruga de desconfiança.
- Soube, através de um e-mail de um amigo que a comadre anda em passeio
- Hum…sim.
- Então, ocorreu-me que poderia passar aqui pela minha toca, descansava
e podíamos, depois, fazer juntas um pouco de exercício.; talvez uma corrida.
Que acha da ideia? Topa?
- Ó comadre, a sua ideia até podia ser gira mas não posso aceitá-la. É que, ainda ontem, estive a ver um filme em que uma Lebre, atrevida e insolente, desafiava
uma Tartaruga simplória para uma corrida. Era uma história antiga, com um
argumento fraquinho, um desempenho
medíocre…
- Mas, comadre, se calhar não gostou do filme porque a Lebre ganhou,
sem dúvida, a corrida e…
- Engana-se, comadre! A vencedora foi a Tartaruga que não perdeu tempo,
sempre com o fito de chegar à meta. E, quer saber a melhor? A Lebre, enquanto a
Tartaruga caminhava, esteve a dormir! Hi…hi…hi…
- Comadre, isso são histórias. Agora, em pleno século XXI, uma coisa
dessas não tem cabimento.
- Anda distraída, comadre. Não
lê os jornais? Não assiste aos noticiários? Agora, como dantes, há sempre quem
queira divertir-se à custa dos mais fracos, ou dos mais ingénuos…
- Eu não faria tal coisa, comadre. Respeito-a muito, como sabe.
- Sei, sim, comadre
Lebre. Mas eu estou noutra. Desloco-me ao meu ritmo, com a minha casinha sempre
a jeito, pronta a acampar onde mais me convier. Não me interessam corridas.
Cada um tem as suas metas e agora aquela que quero atingir é muito simples: ver
o mundo para tentar conhecê-lo melhor.
Com estas palavras acabo a versão
moderna da fábula. Quem quiser poderá acrescentar-lhe outras palavras ou virar
do avesso toda a narrativa. Tanto faz.
Se alguma moral se pode tirar da
versão que aqui deixo é que os ingénuos são só ingénuos; não são tolos. E, mais
tarde ou mais cedo, aprendem a manter à distância os vivaços que encontram pelo
caminho.
Maria
Amélia Timóteo
Texto publicado no jornal da S. C. M. do Cartaxo.
16 junho 2013
PEIXE-SOBA
O rio era uma bênção, um pai extremoso que derramava as suas águas até à orla da floresta no tempo das chuvas.
Quando a grande pedra cravada no leito lançava golfadas de água e lama vermelha, numa espessa massa ruidosa e bravia, recolhiam-se as pirogas, puxadas a braços até ao alpendre da cubata maior. Aí ficavam nos meses das chuvas, aí eram limpos os seus cascos e eram remendadas com madeira nova, atada com lianas. Assim descansavam até que se avistasse o dorso cinzento do Peixe-Soba.
Os rapazes mais ágeis da aldeia subiam às árvores próximas da margem, nas noites de lua cheia, à escuta do rumor da cascata e à espera de que, por entre a névoa prateada, surgisse a grande rocha que o rio esculpira em forma de peixe, cuja cabeça apontava para a sanzala. O primeiro que avistava a cauda hirta, na outra margem, corria até à cubata grande, a dar o aviso. Como prémio, era-lhe permitido acompanhar o soba-grande e o soba-pequeno nas cerimónias do dia seguinte.
Só os muito velhos e os muito pequenos ficavam na aldeia, por não terem forças para empreender a caminhada que se iniciava com os primeiros raios de sol.
À frente, com os toucados de pele e os bastões de comando levantados, apertando o punho gravado com desenhos de aves de asas estendidas, caminhavam os dois sobas. Logo atrás, levando nos braços um peixe talhado em madeira, seguia o jovem que trouxera a notícia de que o rio recolhera ao seu leito. Depois, em linha, seguiam os caçadores com os seus arcos e as aljavas das flechas, batendo os pés e entoando um cântico guerreiro com que ritmavam o passo do cortejo. Os pescadores, de redes ao redor da cintura, fechavam o primeiro grupo.
Uns passos atrás, as mulheres, com os panos garridos e, à cabeça, os balaios com os frutos que a terra concedera na última colheita, formavam a cauda da procissão.
Junto à margem, o soba-grande entoava uma arrastada ladainha, convocando os espíritos dos antepassados para se associarem aos louvores devidos ao Peixe-Soba, cuja imagem de madeira o soba-pequeno mantinha submersa. Ao mesmo tempo, os caçadores mergulhavam os arcos e os pescadores as redes, enquanto as mulheres lançavam punhados de sementes que o cachão turvo do rio fazia rodopiar e logo desaparecer.
Dava-se, assim, início a um novo ciclo de vida comunitária. As mulheres recomeçavam a depositar os grãos na nata que o rio deixava, após as chuvas. Os homens podiam, agora, internar-se na floresta e, seguindo as pisadas dos animais, encontrar peças de caça. As pirogas deslizavam outra vez no rio plácido e voltavam à tardinha, pesadas da pescaria.
Na aldeia, a mãe-grande era a mestra que preparava as adolescentes para os ritos de passagem à idade adulta, revelando segredos, ensinando sobre ervas e raízes, repetindo o que gerações de mulheres, antes dela, já tinham escutado.
O soba-pequeno instruía os rapazes nas lutas, no uso dos arcos e das redes, incitava-os a proezas arriscadas para que ficassem aptos a vencerem as provas que teriam de prestar para se tornarem homens.
Os anciãos, depositários de saberes ancestrais, reuniam-se à volta do soba-grande para, em conselho, administrarem a aldeia e para, usando as palavras e os gestos mágicos, impedirem o Peixe-Soba, ao mesmo tempo amado e temido, de mostrar todo o seu corpo.
Se, por desgraça, esse dia chegasse, o rio deixaria de correr e a aldeia desapareceria, engolida pela voracidade do Peixe-Soba.
Texto publicado no jornal da S. C. M. do Cartaxo.
CALOS
Os verbos que se referem a ações são, geralmente, palavras descomplicadas e fáceis de reconhecer. Ainda assim, alguns ganham peso, ficam substantivos. Quando ouvimos «jantar» e não sabemos o contexto em que a palavra é aplicada, tanto se pode tratar da refeição do fim do dia (substantivo) como do ato de ingerir comida (verbo).
Isto é apenas um exemplo entre tantos outros que poderíamos apontar.
Um verbo que usamos com frequência, quer na sua mais simples aceção, quer em frases feitas ou ditados populares, é «calar». Ainda que pareça simples, quantos significados tem, verdadeiramente, «calar»? É não emitir qualquer som? É não responder, por palavras, a uma interpelação? É guardar um segredo? É levar a que o interlocutor fique em silêncio ou desista de uma qualquer intenção? É, ou poderá ser, tudo isto, dependendo das circunstâncias em que «calar» for usado.
O indicativo presente do verbo calar é «eu calo». Ora, «calo» poderá ser um substantivo, quando aplicado à pele espessa e endurecida das mãos ou dos pés, testemunhos de trabalhos pesados ou de sapatos apertados, ou, no plural, «calos», como chamamos às marcas que a vida deixa no nosso espírito, as dolorosas, entenda-se, pois que as que não doeram não são calos, mas recordações felizes.
Na linguagem de todos os dias, já ouvimos a expressão «pisar os calos». É um sentido figurado que quer dizer magoar alguém, ofender profundamente. E há mais: a virtude da prudência ( ou os telhados de vidro!) que se expressa no ditado: «quem tem calos não se mete em apertos». E ainda o discurso de alguém que é, ou se considera, muito experiente num determinado assunto: «já tenho muito calo…». E mais o discurso daquele que, sendo humilde ou humilhado por outrem, se lamenta: «como e calo».
E de outros calos poderíamos falar: o pequeno triângulo cavado numa melancia para espreitar o interior e ver se está vermelhinha, a cicatriz que assinala, numa árvore, o ponto em que se fez uma enxertia, a calcificação ao redor de uma fratura óssea…
Relendo o que escrevi, acho que me calo, agora, enquanto é tempo, antes que alguém, perdida a paciência, me mande calar.
Texto publicado no jornal da S. C. M. do Cartaxo.
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