Palavras Roladas é um espaço de simples reflexão acerca das palavras que usamos na linguagem de todos os dias e, porventura, de outras, menos gastas, quando convier. As imagens visuais hão-de infiltrar-se, seguras da sua eficácia. Palavras roladas, como os seixos que o vento e o movimento das águas afeiçoaram, como frutos. Então, os olhos encontram-nos e a mão recolhe-os e aquece-os um momento para, mais além, os devolver à praia onde outros olhos e outras mãos os hão-de descobrir e dar calor.
14 outubro 2013
22 setembro 2013
REGRESSO À FOZ
Regresso
de umas curtas, mas pausadas, férias e trago comigo o som do mar, o cheiro das
marés, a coreografia das ondas e mais as esculturas das brechas, poças e vãos
que elas escavam, com infinita persistência, na rocha dura que se atreve a
chegar-se mais perto da mole de água que vai e vem, ao ritmo sábio da natureza.
A
contemplação do mar nunca me cansa. O seu leque de cores não é imitável em
nenhuma obra que o homem empreenda, por mais perfeita que seja. Apenas se criam
aproximações, «impressões» do olhar num dado instante. Disso – e de outras
impressões – falaram largamente os pintores impressionistas há mais de cento e
cinquenta anos. Hoje as suas obras continuam a maravilhar-nos pela técnica e
pela intuição com que esses mestres souberam captar o momento. São belíssimas
pinturas que, particularmente, admiro. Mas o mar transcende todas as abordagens
da Arte. Mesmo a música, a mais abstrata e espiritual de todas as artes, apenas
roça, ao de leve, o que de sublime o mar envolve.
Estive,
pois, junto do mar e, da sua inexcedível beleza, acabo de dar testemunho.
Porém,
os meus olhos viram outras realidades.
Encontrei
pessoas com as quais estabeleci breves contactos, pessoas de várias idades, com
vidas vividas com um sorriso, apesar dos dramas que carregam. Falei com jovens
com empregos a curto prazo, à espera de «saltarem» para qualquer outra situação
nebulosa, sem horizontes nem contornos de esperança. Também eles sorriem,
talvez só por serem jovens, pois a situação social está em maré baixa e, em
termos de ofertas de trabalho, pouco propícia à alegria genuína. Falei com
pessoas com projetos, coisas simples como pescar dois ou três peixes numa tarde
de lazer; ou outros, mais complicados, como editar um livro, resultado de anos
de observação, imaginação e estudo…
Deixo
para o fim o que deveria ter sido o corpo principal deste texto: a indignação.
É uma indignação visceral que, cada vez mais, me impele a que diga BASTA a
tanta poluição que nos rodeia. E não é poluição produzida pela busca de conforto,
o conforto a que todos temos direito. Não. Trata-se de sujidade, lixo que
alguns – presumo que muitos – largam por onde passam: pontas de cigarros,
embalagens de vidro, de plástico, de metal, papelão, papeis, enfim, detritos de
toda a ordem, largados onde calha, na casa comum que é o espaço público. O
local desta incivilidade deveria ser o cartão de visita de uma vila que vive do
turismo, a Praça Sá Carneiro, da Foz do Arelho, exemplo acabado da falta de
cultura para a cidadania que, infelizmente, é endémica entre nós. O nome
honrado de um português ilustre fica mal quando atribuído a um espaço tão
degradado.
Há
dois ou três anos tinha estado junto ao cais da Lagoa e, na sua modéstia, era
um lugar harmonioso e limpo, onde apetecia parar. Agora, é uma lástima, uma dor
de alma passar por ali.
Fiz
esse caminho algumas vezes para aproveitar do trilho pedonal lançado para
preservar o meio natural, à beira da água. A construção desse caminho, com
cartazes interpretativos, mostra que houve sensibilidade por parte das
entidades públicas. Talvez faça falta, então, alguma vigilância para evitar
que, por contágio, se chegue à situação lamentável da praça do cais, o que me
parece muito provável pois é no cais que começa o trilho e, bem perto deste
início, encontra-se o parque para caravanas, um sítio deprimente, sem as
condições mínimas de apresentação e, certamente, de conforto.
O
forçado convívio com o desleixo deixou um travo amargo nas minhas férias.
Até
quando permitiremos que alguns estraguem um bem que é de todos?
Maria
Amélia Timóteo
Texto publicado no jornal da S. C. M. do Cartaxo.
21 setembro 2013
23 agosto 2013
CASINHAS
Nós, portugueses, gostamos de
usar diminutivos a propósito de tudo e nada. Usamo-los para as coisas pequenas,
ou que queremos fazer crer que o são, desvalorizando-as; mas, sobretudo, com
sentido carinhoso ou valorativo. Nesta aceção, ouvimos dizer que fulano tem uma
«vidinha» confortável e despedimo-nos desejando «saudinha»; enfim, poderíamos
trazer à conversa uma torrente de exemplos para demonstrar que os diminutivos
estão, por assim dizer, na ponta da língua da gente lusitana.
Nos encontros SentiArte, uma
amiga questionou-me, algumas vezes, acerca de uma canção interpretada por Milú
num dos filmes produzidos na década de quarenta do século XX. Eu recordava-me
do filme, mas a música que tinha no ouvido era a que os Xutos divulgaram, numa
versão rock em que só usaram a primeira estrofe da letra. Porém, neste nosso
mundo ágil na comunicação, nada mais fácil do que recorrer à internet, procurar
a canção e ouvi-la no original. Foi o que fiz e fiquei surpreendida com a
qualidade do som, muito límpido, e pela orquestração, muito rica e trabalhada.
No que respeita à letra, ela corresponde a uma certa corrente ideológica cujos
valores assentam na pequenez, com ou sem diminutivos, e na felicidade que se
alcança (?) sendo-se modesto, humilde e – valor dos valores – não tendo
ambições, o que julgo ser contra-natura pois nunca conheci ninguém que não
albergasse, dentro de si, uma ambição, qualquer que ela fosse. Resumindo: a
canção chama-se, ou é conhecida como «A Casinha», casinha que é uma
água-furtada, em Alfama, onde mora uma jovem ladina que, assim reza o refrão,
considera que «quase sempre o lar dos pobres/ tem mais alegria». É um retrato
da pobreza urbana, assumida e contente (?) com a sua sorte.
O «cancioneiro» nacional de
meados do século XX tem vastos exemplos de tal mentalidade. Quem não se lembra
de «Uma Casa Portuguesa» onde «fica bem/ pão e vinho sobre a mesa…»? E mais:
com «o sol da primavera» a bater nas «quatro paredes caiadas», « basta um
pouco, um poucochinho para alegrar/ uma existência singela…». É a versão rural
da mesma felicidade urbana que, no dizer da pedagoga Irene Lisboa, consiste em
ter uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma.
No programa «Melodias de Sempre»
que, há décadas, a RTP transmitia e ia repetindo, lembro parte de uma canção cujo
título desconheço. Assim se cantava: «…sem ambições/ cada qual seu pão
granjeia/ e à noite há serões/ à luz da candeia.». Tudo se mantém, pois,
ordenado, bucólico, sereno, despojado, sem o sobressalto das ambições. A luz da
candeia é frouxa, é certo, mas, ainda assim, é uma luz!
O século XX terminou com
legítimas ambições: tetos mais altos do que os das mansardas, algumas proteínas
e vitaminas sobre a mesa, luz elétrica para que se pudesse ler e espreitar o
mundo através de um écran. Na verdade, estas ambições, no século XXI, não foram
ainda plenamente alcançadas.
Enquanto escrevo e vou relendo o
que atrás fica registado, sinto que a ideologia do pequenino, do poucochinho,
se encontra latente, talvez pronta a instalar-se às claras, pois os tempos difíceis
são propícios ao baixar dos braços, ao desfalecimento das ambições.
E, sem ambições, e porque elas
têm a natureza dos sonhos com raízes na terra, nada prospera. Alerta, pois! E
que vivam as ambições!
Maria
Amélia Timóteo
Texto publicado no jornal da S. C. M. do Cartaxo.
20 julho 2013
FÁBULAS
Uma das mais conhecidas fábulas
de La Fontaine
é a que nos conta que, um certo dia, a Lebre desafiou a Tartaruga para uma
corrida. Sabendo que era muito mais ágil e rápida do que a opositora, a Lebre
compareceu no ponto de partida mas, como, em breve, o seu avanço era notório,
decidiu fazer uma sesta e deixou-se cair, bocejando, à sombra de uma árvore.
Quando acordou, a Tartaruga era
só um ponto escuro, lá ao longe, pertinho da meta. Recomposta do espanto, a
Lebre lançou-se a toda a velocidade, tentando recuperar o tempo perdido. Tarde
de mais, contudo, pois, quando, sem fôlego, chegou à meta, já a Tartaruga a
tinha transposto e esperava, pacientemente, ver reconhecida a sua vitória.
Não ficamos a saber se a Lebre se
irritou com o desfecho da aposta ou se tentou inventar boas desculpas para
justificar a sua derrota. O estado de espírito das personagens não é chamado
para a história. E ainda bem, pois, assim, quem conhece a fábula, pode
especular sobre que final, em sua opinião, melhor convirá, e, por assim dizer,
poderá prosseguir até onde a sua imaginação o levar, desde que não ofenda a
dignidade dos simpáticos animais que foram escolhidos para espelharem os
comportamentos humanos.
Ora, com a liberdade que nos dá
«recontar» uma história consabida, vamos trazê-la para a atualidade, mantendo
as personagens e o cenário da ação.
E ficaria como segue a velha
fábula:
Numa fresca manhã de Junho ( ou de qualquer outro mês), a Tartaruga,
que estava de férias, dispôs-se a viajar para conhecer mundo.
Achando perigosa a auto-estrada, decidiu enveredar por um caminho de
terra que atravessava uma floresta.
Pára aqui, pára ali, acercava-se de uma clareira no preciso momento em
que o seu telemóvel tocou. Atendeu a chamada um pouco contrariada pois o número
era desconhecido.
- Sim?
- Olá, comadre Tartaruga. Daqui fala a Lebre. Lembra-se de mim?
- É claro que me lembro…
E na testa da Tartaruga formou-se uma ruga de desconfiança.
- Soube, através de um e-mail de um amigo que a comadre anda em passeio
- Hum…sim.
- Então, ocorreu-me que poderia passar aqui pela minha toca, descansava
e podíamos, depois, fazer juntas um pouco de exercício.; talvez uma corrida.
Que acha da ideia? Topa?
- Ó comadre, a sua ideia até podia ser gira mas não posso aceitá-la. É que, ainda ontem, estive a ver um filme em que uma Lebre, atrevida e insolente, desafiava
uma Tartaruga simplória para uma corrida. Era uma história antiga, com um
argumento fraquinho, um desempenho
medíocre…
- Mas, comadre, se calhar não gostou do filme porque a Lebre ganhou,
sem dúvida, a corrida e…
- Engana-se, comadre! A vencedora foi a Tartaruga que não perdeu tempo,
sempre com o fito de chegar à meta. E, quer saber a melhor? A Lebre, enquanto a
Tartaruga caminhava, esteve a dormir! Hi…hi…hi…
- Comadre, isso são histórias. Agora, em pleno século XXI, uma coisa
dessas não tem cabimento.
- Anda distraída, comadre. Não
lê os jornais? Não assiste aos noticiários? Agora, como dantes, há sempre quem
queira divertir-se à custa dos mais fracos, ou dos mais ingénuos…
- Eu não faria tal coisa, comadre. Respeito-a muito, como sabe.
- Sei, sim, comadre
Lebre. Mas eu estou noutra. Desloco-me ao meu ritmo, com a minha casinha sempre
a jeito, pronta a acampar onde mais me convier. Não me interessam corridas.
Cada um tem as suas metas e agora aquela que quero atingir é muito simples: ver
o mundo para tentar conhecê-lo melhor.
Com estas palavras acabo a versão
moderna da fábula. Quem quiser poderá acrescentar-lhe outras palavras ou virar
do avesso toda a narrativa. Tanto faz.
Se alguma moral se pode tirar da
versão que aqui deixo é que os ingénuos são só ingénuos; não são tolos. E, mais
tarde ou mais cedo, aprendem a manter à distância os vivaços que encontram pelo
caminho.
Maria
Amélia Timóteo
Texto publicado no jornal da S. C. M. do Cartaxo.
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