07 abril 2011

MEMÓRIA

- Conheces?
- Não. É linda!
- Quem seria?
- Uma amiga da avó, talvez. Nunca te falou dela?
- A mim?! Eu era uma criança quando a avó faleceu.
A fotografia, a preto e branco, todas as gradações intermédias de cinzento, entre sombra e luz, moldando as formas, foi passando das mãos de uma para as mãos da outra.
Permanecia íntegra, sem amarelecimentos, sem vestígios de humidade, dentro de um envelope rígido, esse, sim, acusando a usura do tempo. O selo branco de um fotógrafo londrino marcava o cartão da capa no canto inferior direito. Folheando, seguia-se o papel translúcido, com finas aranhas em relevo, a proteger o rosto oval e o colo de uma mulher adulta, jovem ainda, uns olhos líquidos, penetrantes, e um quase sorriso, um jeitinho na boca de quem pronunciaria uma palavra se o flash não tivesse disparado antes.
- É obra de um artista. Repara nos ornamentos do contorno, como que uma moldura…
- E o tule bordado da blusa, ou vestido? Que delicadeza nos pormenores!
Na base, sobre o diluído pregueado da roupa, a dedicatória: «To my dear friend, Mrs. …». Pouco mais conseguiram decifrar. Aquela caligrafia alta, inclinada, com hiatos entre cada letra, era críptica. O nome da avó não oferecia dúvidas. Àcerca da assinatura, em letra mais miúda, tal como a última das cinco linhas, não estiveram de acordo. A inicial caprichosa do nome próprio podia ser um «E», um «L», ou um «F»…
- Ficas tu com a fotografia?
- Porquê eu? Fica tu. Podes emoldurá-la, até.
- Sim? E diria que era quem? Uma tia?
- Não tens de explicar nada. Podes dizer, simplesmente, a verdade: que era uma amiga da avó, uma senhora inglesa.
Durante semanas, a foto foi ficando sobre a cómoda onde fora encontrada, enquanto a casa ia ficando vazia.
Quando chegou a vez da cómoda ser retirada, a fotografia foi transferida para o peitoril da janela, e de novo admirada e discutido o destino a dar-lhe. Não representando nenhum familiar, nem os de sangue, nem os dos afectos, não fazia sentido guardá-la.
Incomodava, a ambas, deitar fora uma imagem tão bela. Sim, mas primeiro teria de ser destruída. Um rasgão, a meio; depois outro, outros, até restarem só pedacinhos que, a esmo, foram lançados no saco dos papéis para reciclar.
De quando em quando, o enigma da senhora inglesa vinha à conversa. Originou, até, uma espécie de aforismo familiar:
«- Olha? Isso é como a fotografia da inglesa: ninguém sabe, ao certo…».

Porém, como nada se perde, em qualquer parte do mundo, alguém terá escrito, ou há-de escrever, um poema, uma mensagem banal, uma carta definitiva, um relatório, um mapa de tesouraria, um atestado, nas fibras que fixaram, nos anos vinte do século vinte , a imagem de uma belíssima mulher.
Definitivamente, só existimos, no futuro, enquanto alguém guardar a nossa memória.
Depois, havemos de ser, algures, outra coisa qualquer.

Maria Amélia de Vasconcelos
Publicado no jornal interno da S. C. da M. do Cartaxo. 

08 março 2011

CARNAVAL

O calendário marca, na roda do ano, as épocas próprias para as diferentes festas. Cumprindo o estabelecido, foi a vez do Carnaval, ou Entrudo, festa móvel que, neste ano, «caiu» em Março. Em rigor, o Carnaval não se reduz a um dia especial; é, antes, uma época, relativamente alargada, que se estende desde o dia de S. Vicente – 22 de Janeiro – até Terça-feira Gorda, o último dos três dias «gordos» que incluem a segunda-feira e o domingo anteriores.

As origens do Carnaval são remotas e, como quase sempre acontece com as tradições que perduram, assentam em crenças religiosas que, de uma forma ou de outra, se relacionam com os ciclos da Natureza.
Os romanos, herdeiros e divulgadores de muitos cultos religiosos, que assimilaram com a mesma avidez com que submeteram, militarmente, os mais diversos povos, reabilitaram o arcaico deus grego Cronos – o Tempo – sob a denominação de Saturno. Cronos detinha a foice mágica que cortava o tempo velho (o inverno) para permitir a entrada do tempo novo – a primavera. Nos territórios do império romano, o culto de Saturno (Cronos) foi amplamente difundido. No inverno, entre os finais de Dezembro e Fevereiro, nos bosques, realizavam-se festas noturnas – as saturnálias – em que, ao redor de fogueiras, homens e mulheres se entregavam a danças rituais, vestidos de branco, roupagem da deusa egípcia Hathor, deusa lunar, interveniente na passagem das almas da vida terrena para vida eterna, também ela adotada pelos romanos, e com lugar no panteão. Estas festas, transversais a todas as classes, incluíam o consumo excessivo de comidas e bebidas, o que levava a uma desmesura nos costumes que não era tolerada em qualquer outra época do ano. À ideia de renovação andavam associadas lendas e superstições: era necessário deitar fora o que era velho e receber, de Saturno, aquilo que era novo, o vigor que só os deuses podiam transmitir aos homens. Imbuídos do novo, os povos participavam da energia cósmica que era patente no despontar das árvores e no desabrochar das primeiras flores. Em linguagem coloquial dos nossos dias, diríamos que os povos «carregavam baterias».

Com o estabelecimento do cristianismo, no século IV, a Igreja procurou que as celebrações das saturnálias se conformassem, tanto quanto possível, com os preceitos doutrinais. Nos diferentes estados que se formaram após a queda do império romano, as festas foram ficando confinadas a um período de tempo mais restrito, mudando-se o seu nome para «Carnaval», e foram sujeitas a leis que visavam moderar o desregramento e a violência.
No período do Renascimento, em Itália, o Carnaval era pretexto para festas sumptuosas. Os grandes senhores, servidos por artistas talentosos, disputavam a glória de serem recordados por promoverem os divertimentos mais criativos. A coberto das máscaras, recuperadas do antigo teatro grego, e das pequenas mascarilhas, mais cómodas de usar, os foliões noturnos davam livre curso aos seus intentos. Durante o dia, realizavam-se desfiles subordinados a um tema, como acontece, presentemente, no Carnaval do Rio de Janeiro, o mais popular à escala mundial graças aos meios de comunicação global.

Carnaval é uma palavra francesa usada em quase todas as línguas e derivada de «carnelavare» que, no dialecto da Toscânia ( norte de Itália) significa «levar» ou «retirar» a carne. Como se entende, a palavra indica a chegada da Quaresma e a consequente obrigação do jejum. O termo «Entrudo», só usado na Península Ibérica», advém diretamente do latim «introitu» que significa «entrada», a entrada da Quaresma, período de purificação que se inicia na quarta-feira de cinzas.

Em Portugal, uma disposição régia de 1542, determinava que não se realizassem os trabalhos da chancelaria até quinta-feira, o que indica que, depois dos folguedos, a quarta-feira de cinzas era dia assinalado, não sabemos se por ser o primeiro da Quaresma se por ser necessário descansar.
A tradição de um Carnaval agressivo, que não poupava ninguém, foi-se diluindo com o passar dos tempos, mercê, também, de leis, como a de 1817, que proibia as brutalidades da quadra.

O Carnaval continua vivo, por esse mundo fora. Brincar faz bem ao corpo e à mente, com conta, peso e medida, como é uso dizer-se, ou não vivêssemos numa sociedade organizada, pronta para punir todos os carnavais excessivos e, por maioria de razão, todos os carnavais fora de época.

Maria Amélia de Vasconcelos
Texto publicado no Boletim Informativo da S. C. da M. do Cartaxo.

04 março 2011

LÍAMOS POEMAS

Líamos poemas ao entardecer
ou no calor
das noites acesas.

O gravador de fita
uma a uma repetia
as palavras presas
e devolvia
quase exacta
a cor da nossa emoção.

A inspiração dos poetas
soltava nossa voz original
oculta e pura
cristal da rocha
por lapidar.

Líamos poemas ao entardecer
A tactear a harmonia
De olhos acesos acesos acesos.

Maria Amélia de Vasconcelos

08 fevereiro 2011

DIA DE...

Vivemos sujeitos, em simultâneo, às dimensões que mais condicionam a vida humana: o espaço e o tempo. Uma e outra podem medir-se, de acordo com escalas convencionais que, alterando-se com o evoluir das civilizações, são, salvo raras exceções, universalmente aceites. Podemos, assim, utilizar palavras como «ano», «mês», «dia», «hora», no que concerne ao tempo, pois estes conceitos são compreensíveis pela maior parte dos povos. Do mesmo modo, a dimensão «espaço» também é entendível, usando o vocabulário específico para as distâncias, os acidentes geográficos, a rosa-dos-ventos, mais a latitude, a longitude, a altitude. Com estes dados nos vamos situando, ao cimo da Terra, usando as palavras que indicam o tempo em que algo ocorreu e as que referem o lugar onde tal acontecimento se deu.

Os povos, necessitando de preservar a memória coletiva, foram registando os acontecimentos mais marcantes das suas vivências. A História, enquanto ciência, e usando os métodos que lhe são próprios, «arruma» essas etapas e estabelece-lhes enquadramentos coerentes.

Para ajudar a manter vivas as lembranças relevantes para a sua coesão, os povos sentiram necessidade de criar os seus «dias nacionais», feriados civis, quando são lembrados os heróis fundadores, as datas dos tratados que criaram os países ou definiram as fronteiras, os artistas, os cientistas, em resumo, destacar os dias em que se pretende estreitar mais os laços em torno da ideia, um tanto ou quanto abstrata, de pátria .Pela mesma razão – estreitar os laços – celebram-se os dias santos que, marcadamente religiosos, interagem, também, com a vida civil, na medida em que influenciam o decurso do quotidiano: comércio encerrado, menos transportes públicos, festejos locais, enfim, as alterações próprias dos dias especiais. Em Portugal, no ano corrente, entre feriados civis e dias santos, teremos, salvo erro, umas catorze datas a assinalar.

Desde há umas décadas, têm sido criados, um pouco por todo o mundo, os «dias de…», às vezes com o intuito de homenagear ou por em relevo uma causa, ou uma categoria de pessoas ( criança, idoso, mulher…), a que nem sempre é alheio o intuito do ganho comercial.. Estes «dias de…» podem ser nacionais, europeus, internacionais ou mundiais, conforme se assinalam em espaços geográficos cada vez mais abrangentes.

Tenho aberta, na minha frente, uma agenda para 2011 e verifico que, por exemplo, em Novembro, o dia 15 evoca a Linguagem Gestual Portuguesa, e o dia 21 celebra o Dia Internacional da Saudação. Não vem mal ao mundo por nos fazerem lembrar a importância da linguagem gestual. E é bom não esquecer, também, que o mínimo que podemos fazer, é saudarmo-nos uns aos outros, prática, aliás, a cair em desuso, mas que não deveríamos deixar cair, pelo menos quando entramos ou saímos de um local onde se encontra alguém, conhecido ou não. Saudar, com a voz ou o gesto, é «salvar», «dar a salvação», desejar o bem-estar, a saúde ao nosso semelhante. Mas, pergunto-me se andaremos tão distraídos com o que se passa, que tenha de se criar «um dia» que nos assinale aquilo que deveria fazer parte da nossa mais elementar memória.

No mês de Maio, os «dias de…» são, ao todo, 16! Destes, três têm mais do que uma causa a destacar. O dia 31 evoca o Pescador, e só temos que aplaudir, agradecidos, todos os dias, quem exerce uma profissão tão dura e perigosa. O mesmo dia, é «Dia Mundial sem Fumo», o que me confunde um pouco, pois não alcanço o seu exato significado. Não lançar mais fumo para a atmosfera, já tão saturada e enferma? Excelente razão! Impedir que se faça a fogueirita fumarenta onde se hão-de assar as primeiras sardinhas da época quente? Não lançar foguetes? Não acender velas votivas? Dar descanso aos bombeiros que, a 28 do mesmo mês, têm o seu «dia mundial»? Repito: este «dia sem fumo» vai além do meu entendimento. Talvez mereça, mesmo, uma refleção séria, ponderando todas as razões para não haver fumo, as quais serão, naturalmente, muitas. Ocorre-me agora que – quem sabe? – possa ser o dia em que os sinais de fumo, linguagem antiquíssima, estarão, de todo, proibidos…

Em todo o caso, hei-de estar atenta à data para não destoar das boas intenções com que, mundialmente, foi criado este «dia de…».

Maria Amélia de Vasconcelos

Texto publicado no jornal interno da S.C.da M.do Cartaxo.

01 fevereiro 2011

AS UNHAS DO TEMPO

As unhas do tempo
não se desgastam

Riscam sem descanso
nos umbrais das madrugadas
as pedras os musgos
a corrente dos rios
e tecem os fios tensos
que ajustam
os gravetos dos ninhos
cunhais das moradas
e marcam as aladas viagens
das sementes.

As unhas do tempo
no exacto tempo em que escrevo
escavam imparáveis
reconhecíveis sinais
de permanente mudança
das cores vivas ao desmaio
até ao denso cinzento
das estátuas.

Num momento
nós e as coisas
mesmo a rosa a rosa
de pele de espuma
dilacerados
apartados do ser e do sentir

imprestáveis coisa nenhuma
sem contorno ou dimensão
cortina a dividir
os astros de outros astros
átomos em suspensão a pairar
escassamente duráveis
segundo a humana compreensão
somos a presa das unhas do tempo
seu perene sustento
o alimento
da poeira estelar.

Maria Amélia de Vasconcelos

02 janeiro 2011

GANHAR OU PERDER

Duas faces têm as moedas – cara e coroa – como as designamos.

As palavras escolhidas para título desta reflexão são, cada uma, cara e coroa de si mesmas, conforme o sentido em que as usamos.

Ora comecemos com «ganhar», que pode ter uma carga positiva ou negativa. Ganha-se a coragem, a confiança, o afecto, o conhecimento, a experiência; ganham-se os bens materiais, ganha-se a vida, ganha-se o dia quando algo corre conforme o nosso desejo, ganha-se tempo, até o tempo, a mais escorregadia das medidas que o homem crê dominar…Ganhar! Mas também ganhamos manias, suspeições, indiferença, vícios, inimigos, raiva, às vezes um capital de raiva tão milionário que temos de o aliviar descarregando-o como podemos (quase sempre como não devemos!) e, assim, «desperdiçamos» esse ganho negativo que fomos acumulando.

Perder, também pode ter um significado de coisa valiosa: perder o medo, perder certos hábitos e paixões, perder peso, quando o espelho e a balança, aliados a nosso favor, nos dão um sinal de alerta. A lista de perdas de cariz negativo é quase infindável. Podemos começar pelo tempo que, bem sabemos, não nos pertence, mas que sempre clamamos porque o perdemos. E perdemos, no jogo da vida, parentes, amigos, referências, a saúde, às vezes as estribeiras e, com elas, a razão. Estas são perdas de vulto. Mas «perder» é verbo quotidiano, sempre a jeito, usado a torto e a direito, sem discernirmos, a fundo, se, quando dizemos «perdi», não seria mais justo dizermos «ganhei».

Não esvaziámos, nem esse era o objectivo, o sentido de ganhar e de perder. Há tantas outras formas de abordar o significado destes dois verbos, que nos parecem pólos opostos, mas que mais não são que um só conceito, quando entendidos de trás para a frente e da frente para trás, isto é, quando volteamos a moeda…

Acabámos de perder (ou ganhar?) um ano velho, com as suas vicissitudes, as próprias de todos os anos, com dias luminosos, outros de bruma.
Acabámos de ganhar um tempo novo, mais uma sucessão de dias que colocamos num calendário circular e que se fechará num outro dia de São Silvestre.
Chamamos-lhe, agora, Ano Novo. Com ele reafirmamos a esperança de entendermos melhor quando ganhamos, mesmo que os dias escuros nos queiram convencer de que perdemos.

Maria Amélia Vasconcelos
Texto publicado no jornal interno da S.C.da M.do Cartaxo.

10 dezembro 2010

NATAIS


Técnica mista sobre tela
Só três figurinhas
o Menino, Maria, José
e umas palhinhas
na manjedoura desconjuntada
em cada Dezembro restaurada.

Era de esferovite o castelo
prata e ouro
ameias e um sino
que por não tocar
nunca havia de acordar
o Menino.

Onde já se viu o Salvador
ir nascer assim
em tal esplendor?
Um castelo? Nem mais!
E com escadaria
dos mesmos metais
para que José e Maria
pudessem honrar
os reis
que haviam de chegar.

O conjunto
para maior dignidade
tinha o azul como fundo
a colcha, o laço
e estrelas uma infinidade
com alfinetes pregadas.

Era o mais lindo
Presépio do mundo.
Era tão belo
que dois pares de olhos
só de vê-lo
enchiam de luz
a casa inteira.

Então no calor
dessa fogueira
Pai e Mãe recolhiam
de mansinho
esses presentes de Amor
deixados por Jesus
no sapatinho.

Maria Amélia de Vasconcelos