17 agosto 2012

JOGOS

Escrevo no rescaldo dos Jogos Olímpicos de Londres.
O país anfitrião não poupou esforços para que todo o espetáculo, que o desporto também o é, fosse grandioso, independentemente das marcas alcançadas, da euforia dos ganhadores ou do desânimo dos que não atingiram os objetivos que se propunham.

Aos Jogos Olímpicos só vão os melhores pelo que, estar presente e participar, é, por si só, um prémio ao alcance de muito poucos. Cada um dos que aí chega é, sem mais, um vencedor.
Portugal levou a Londres atletas com excelentes marcas e coube-lhe subir ao pódium, uma vez, nas pessoas de dois jovens canoístas que alcançaram a medalha de prata na respetiva modalidade.
Para além desta vitória, foram vários os desportistas a quem foram conferidos diplomas por terem atingido lugares cimeiros nas competições.
No conjunto, Portugal teve uma presença digna nestes Jogos, tendo em conta que, por detrás de cada participação está um trabalho de anos, sem pausas nem distrações, com a dedicação de quem é «amador», isto é, de quem ama o que faz e luta por melhorar o seu desempenho. São treinos aturados, de muitas horas diárias, sem tempo para a família ou para a diversão com os amigos, em que não há folgas nem, por vezes, para o necessário descanso. Um atleta tem de ser senhor de uma vontade férrea e de uma auto-disciplina que não ceda à comodidade e ao prazer.

Isto que aqui deixo registado é do conhecimento geral.
Mas, exatamente, por serem por demais conhecidas as exigências a que se submetem os desportistas de alta competição, é que eu me indignei, por ouvir e ler, nos meios de comunicação social, um comentário leviano, para não dizer malévolo, à participação portuguesa nas Olimpíadas deste ano. Alguém comentou, e outros fizeram eco, que, contas feitas aos custos com a presença em Londres, nunca uma medalha ficara tão cara ao país. Será com critérios economicistas que se avalia o desporto? Somos, assim, tão pobres de valores que o mérito desportivo, ou de qualquer outra área, do conhecimento ou da arte, tem de ser reduzível a dinheiro? Porque é que, entre nós, há-de sempre ouvir-se uma voz a amesquinhar um feito que a todos deve honrar, comparando-o a uma mera folha de «deve» e «haver»?
Trata-se de uma pequenês nacional, sem remédio? Tenho fé que não!

Quem dera que vão despontando jovens que invistam no desporto, por oposição ao sedentarismo – com o seu cortejo de hábitos indesejáveis – que é prevalecente na nossa sociedade.
A escola tem desempenhado um papel relevante no sentido de estimular a prática da educação física e do desporto. Disseram-me, contudo, que os novos programas retiram carga horária à disciplina. Sendo isto verdade, e espero estar mal informada, a educação sai prejudicada nos seus objetivos mais amplos: formar cidadãos aos quais se possa, com propriedade, aplicar a máxima: «mente sã em corpo são».

Maria Amélia de Vasconcelos
Texto publicado no jornal da S. C. da M. do Cartaxo



15 agosto 2012

MARÉ BAIXA

Retirou-se o mar
em recuos de água morna
levemente
para não despertar
ecos nos búzios antigos
vigilantes
das marés.

Marcou a sua líquida forma
impressão digital
bordada em orlas
no areal.
Calou a música das ondas
e o grito gutural
das gaivotas esmoreceu
na praia vazia.

Ficámos nós
apenas nós
revestidos de bruma
e maresia
à janela da vazante
no declinar do dia
com as palavras impronunciadas
amarradas na voz.

Ainda agora, que dizias
nesse sibilar murmurante
que não sei decifrar?
Era mar? Amar?
Nesse instante
contavas uma história?
Cantavas uma ladainha?

Soam sempre tão esguias
as falas de conversar
quando a noite se avizinha…

Maria Amélia de Vasconcelos
Agosto de 2012

19 julho 2012

ROMARIAS

Em Portugal, um pouco por todo o lado, com maior incidência no norte do país, é tempo de romarias. Os dias longos e quentes são um convite para uma quebra no quotidiano das gentes e para uns momentos de diversão. É a festa.

A motivação inicial para as romarias não foi a diversão, antes a devoção. Conforme o nome indica, «romaria» deriva de Roma, local de peregrinações cristãs desde os primeiros séculos da nossa era. Aos peregrinos que iam à capital do Império se chamavam «romeiros», designação que se tornou abrangente e que se aplica a quem vai, por devoção, a um qualquer lugar de veneração religiosa.

Pela evolução dos costumes, a festa profana foi criando o seu espaço, foi-o ampliando ao redor da igreja e, nos nossos dias, as «estrelas» da música pop são o chamariz infalível para que uma romaria seja concorrida e dê lucro, condição apetecível para qualquer mordomo que se preze.
Há romarias de grande nomeada, com créditos firmados, que agregam desfiles etnográficos e históricos, cantares e danças recolhidos da tradição, e, até, feiras que atraem multidões.

Neste mês de Julho, a festa mais difundida é a de Santiago. Celebra-se a 25, lembrando o dia em que, segundo a lenda, o corpo do apóstolo que empreendeu a cristianização da Península ibérica foi transladado para Santiago de Compostela. Sobre o seu túmulo se haveria de erigir o santuário e, à sua sombra, cresceria uma das mais bonitas cidades da Galiza, destino de peregrinações oriundas dos quatro cantos do mundo.
Os romeiros de Santiago têm insígnias próprias que os distinguem, as quais, tendo perdido a função prática pelo avanço da ciência e da técnica, se vendem, em miniatura, como lembrança do caminho devocional; são elas: o bordão que ajuda a firmar o passo, a cabaça onde se guarda o vinho do alento e a concha de vieira, taça sempre pronta para, por ela, se poder beber em qualquer fonte.

Os tempos são outros e as fontes já não são puras, com perdão das que ainda o sejam.
Mas, deslocar-se, como peregrino ou como turista, a Santiago de Compostela, é uma viagem que se guarda no álbum das boas lembranças.

Maria Amélia de Vasconcelos
Texto publicado no jornal da S. C. da M. do Cartaxo

17 junho 2012

ENCOMENDA

Alguns livros de leitura usados nas escolas primárias portuguesas nos anos 40 e 50 do século passado apresentavam excertos selecionados de obras de vultos importantes da nossa literatura, acessíveis à compreensão de crianças de dez, onze anos. A boa literatura era - e é - entendida como um bom alimento para os espíritos que se estavam a formar e que, na maioria dos casos, não prosseguiriam estudos para além da 4ª classe, ou exame do 2º grau, como também se dizia.
Um desses textos, muito repetido em vários manuais, era «A Encomendinha», retirado de um livro de contos do escritor Trindade Coelho (1861-1908). Tratava-se do relato gracioso da chegada à escola, para o primeiro dia de aulas, de um menino da província. Vinha pela mão da criada que, com «os cumprimentos lá de casa», entregava ao professor aquela «encomenda», isto é, o novo aluno que, muito intimidado, nem imaginava ao que ia.

A propósito de encomendas, das menos comuns, naturalmente, de quando em vez recordo-me deste texto e dos sentidos que, à palavra, podem ser emprestados. Também eu recebi, há umas semanas, uma encomenda, por assim dizer, impensável: escrever umas quadras alusivas aos Santos Populares para serem colocadas nos cravos de papel que enfeitam os manjericos.
Resisti intimamente, sabendo, porém, que, de qualquer modo, não poderia recusar o que me era solicitado. Andei com o assunto enrolado, deixando-o arrastar até ao limite dos limites, entre ganas de que surgisse um bom motivo para desmanchar o (quase) acordo, e a necessidade de ter de honrar o pedido de quem achou que eu levaria a bom termo tal tarefa.
Num fim de tarde, sem grande inspiração, lá me decidi a iniciar a escrita a qual se saldou – como os ovos que compramos! – numa dúzia de quadras dentro do espírito da tradição. Umas nasceram num impulso, outras foram mais pensadas, como sempre acontece com aquilo que fazemos, qualquer que seja a atividade. No que toca aos temas, há as de iniciar namoricos, as de desdém pelo (a) pretendente, passando, é claro, pelas de louvor aos santinhos.
Como estamos em Junho, o tempo das fogueiras com que se celebram popularmente Santo António, São João e São Pedro, deixo aos leitores três dessas quadras, nascidas de uma encomenda e escritas no prazo exigido.

São três santos de devoção
Neste Junho de alegria
Santo António, São João
São Pedro acaba a folia.

Só me falas de mansinho
Quando não queres que te abeire.
Segue lá o teu caminho
Tu não és flor que se cheire.

Se santo António te visse
P’los olhos do meu olhar
Já não seria santinho
Nem estaria no altar.

Votos de boa diversão nos arraiais, com sardinha assada, ou outros petiscos que sejam do vosso gosto.

Maria Amélia de Vasconcelos
Texto publicado no jornal da S. C. da M. do Cartaxo

14 maio 2012

LÍQUIDO

A chuva que caiu nas últimas semanas – abençoada chuva cuja ausência, na época em que era esperada, tanto preocupou os portugueses, por causa da memória coletiva de prolongadas secas – a chuva, dizia eu, abre-me caminho para reflexões acerca das qualidades inerentes à condição do que é líquido.

O planeta Terra, a nossa grande casa, a grande mãe que nos sustenta a todos, animais e plantas, é predominantemente líquida. É uma casa com fundações, paredes e tetos feitos de mares, lagos e rios; só as portas, as janelas e o mobiliário serão de terra firme e, ainda assim, por baixo e por entre essa visível consistência deslizam veios de sangue e linfa, os líquidos que dão vida e equilíbrio aos seres.

Os mamíferos, desde a conceção ao nascimento, habitam o meio líquido, aí flutuam e aí se desenvolvem. Uma vez saídos do ventre materno, procuram alimento no leite, leite que «sobe», como dizemos quando se trata de partos dos humanos. «Sobe», isto é, brota do mais profundo até à superfície, como uma fonte que só em determinados momentos escorre. É uma expressão muito poética, esta, a subida do leite. A mulher que deu à luz sofre uma pequena febre, um calor que assinala o movimento de vida que é o jorrar do líquido que vai alimentar o seu filho, até então nutrido do que a nutria. Continua-se, assim, o elo mãe-filho através da alimentação, a par dos afetos que são alimento também.

Os frutos, quando maturados em extremo, destilam líquidos, xaropes densos que tendem para a putrefação porque é líquida a vida como líquida é a morte. Considerando, ainda, os frutos, muitos são esmagados, liquefeitos, para deles só usarmos o sumo. Quem não aprecia uma limonada no calor do verão? O mercado encheu-se de sumos, com polpa ou sem polpa, que consumimos durante todo o ano, às vezes com pouco critério, não levando em conta, como coisa de somenos, alguns malefícios que podem causar à saúde.

Porém, o líquido mais divulgado em todo o mundo é o vinho. De um cacho de uvas espremido sai o mosto, o sumo açucarado que, umas escassas horas depois, deixa de o ser, distante, já, do que lhe deu origem; modificado por processos químicos naturais, perdeu em doçura o que ganhou em álcool.

O homem conhece essa metamorfose desde as mais remotas civilizações, tal como conhece a alma, a força, a natureza da alquimia que transmuta frutos numa bebida digna de deuses, que a requerem para a celebração dos mistérios e para o apaziguamento de tormentas naturais, mitificadas, como as trovoadas, os terramotos, as inundações e as secas.

Com o vinho se brinda à saúde e ao sucesso de quem queremos festejar, por entre vivas e palmas. Com o vinho, sorvido sem critério, engolido sem que se lhe tome o aroma nem o paladar, se destroem vidas promissoras, escravas de um vício.

À volta do vinho há toda uma cultura no mundo ocidental. Só o café pode, ainda que palidamente, comparar-se-lhe. A estes dois líquidos conviviais falta juntar o chá, rei nas culturas orientais, também ele muito apreciado entre nós.
Os três líquidos celebrativos são capazes de fazer sentar, à volta da mesma mesa, um grupo que busque a harmonia e o entendimento.

Não é, porém, «líquido» que a simples ingestão de uma bebida chegue para alcançar tão altos propósitos. E é pena que não seja, assim, tão fácil….

Maria Amélia de Vasconcelos
Texto publicado no jornal da S. C. da M. do Cartaxo.

ANATOMIA

MELANCOLIA