28 setembro 2015

EM FORMAÇÃO

Eram cerca de vinte pessoas, a maioria do sexo feminino, que cumpriam uma jornada de formação. Não tendo eu visto qualquer identificação, atrevo-me a afirmar que a média de idades ultrapassava os quarenta anos. Encontrei-os divididos em pequenos grupos discutindo objetivos e estratégias, tomando notas e construindo documentos para apresentar ao formador. Este reconhecia-se ao primeiro olhar: fato completo, gravata, ar sério e passos medidos por entre as mesas, olhando de alto. Se dúvidas me assaltassem elas dissipar-se-iam quando o senhor avisou o grupo de que os trabalhos iriam recomeçar.

A revoada deixou os lugares à mesa e, pouco a pouco, foi entrando numa sala. Chegava ao fim o «break» que não fora, afinal, de descanso mas, apenas, um filão estreito e, talvez, mais claro entre a massa pesada e argilosa que havia para moldar: as competências, signifique o termo o que significar. Soltaram-se, então mais alto, algumas palavras, tais como, responsabilização, colaborador, empresa...

Deste quadro concluí que, enquanto eu descansava e contemplava lonjuras, o verão se tinha escapulido entre os meus dedos, mesmo que o calendário não o confirmasse. É que, ali ao meu lado, trabalhava-se, talvez sem entusiasmo, presumo eu. Setembro não tinha chegado a meio, ainda não se dourava a natureza e o desencanto daqueles formandos era já patente.

Gostaria de acreditar que estas pessoas se enquadravam numa qualquer empresa estável, que, no final do mês receberiam um salário digno para fazerem face às despesas, que, enfim, tinham um emprego e estavam a atualizar conhecimentos, de modo a melhorarem a sua prestação profissional.

As grandes e médias empresas proporcionam aos seus colaboradores esses momentos de aperfeiçoamento, com proveitos notórios nas competências individuais e na rentabilidade e eficácia do trabalho.

Este grupo, no entanto, não parecia ter a coesão de quem se conhece e se empenha na direção de uma finalidade comum. Ao vê-lo, assim, compósito, recuei vinte e tal anos e lembrei-me do tempo em que, quem não arranjava emprego e tinha algumas qualificações escolares, ajeitava a vida vendendo enciclopédias de porta em porta. Eram jovens e tratava-se de uma ocupação temporária, semelhante à dos que, hoje, nos propõem que nos fidelizemos a pacotes de telefone-televisão-internet.

As pessoas que observei não eram, propriamente, jovens. Cada uma delas já terá, por certo, experiência profissional numa qualquer área. Estavam em formação, mais uma formação, por certo, na tentativa de alcançar um posto de trabalho.

Se não olharmos, apenas, ao aspeto prático e objetivo deste «estar em formação», todos nós, seres humanos, estamos em formação enquanto o espírito estiver desperto, pois há, sempre, algo para aprender ou para cimentar mais profundamente. «Estar em formação» igual a estar desempregado é uma realidade dos nossos dias, triste realidade que é impossível ignorar, tantas são as famílias que vivem sob condição, a prazo, à espera que uma formação lhes abra as portas para um trabalho compensador.

Seria bom que amanhã fosse o dia em que o número do desemprego se reduzisse a um dígito percentual. Baixinho, acrescento ainda.

O trabalho é parte integrante do conceito de pessoa, confere direitos e deveres, firma a auto-estima. É ele que aglutina as sociedades e as faz prosperar.

Maria Amélia de Vasconcelos
Texto publicado no jornal da  S. C. M. do Cartaxo

VITÓRIA-ESPANHA

CHAPÉUS
Foto de: Maria Amélia de Vasconcelos

DOS SONS NASCEM AS IDEIAS

Jaíra foi a primeira a afastar a cadeira da mesa, perguntando se estava ocupada.

Estava livre. Sentou-se, então, com um suspiro de cansaço e alívio, como quem alija um carrego.  Na sua frente sentou-se a amiga, cumprimentando-nos com um sorriso e uma inclinação de cabeça.

O nosso almoço aproximava-se do fim, faltando só a sobremesa. Em menos de um «ai», as duas mesas tornaram-se numa só, uma «mesa redonda» de conversa, mais de meia hora, de conversa espontânea. As recém-chegadas tinham desembarcado em Portugal, vindas do Brasil, estado de São Paulo. De dois em dois anos, estas amigas saem do seu país natal e visitam o velho continente, conjuntamente com um grupo que, em geral, se compõe dos mesmos elementos, sempre a cargo da mesma agência de viagens. Desta vez o destino era a Hungria. Em Lisboa faziam escala e dispunham, apenas, de umas quantas horas, poucas, de modo que não iriam alargar muito o escasso conhecimento que tinham da cidade.

Sobre o nosso país tinham algumas informações, sobretudo do momento sócio-político e económico. Interessadas na sustentabilidade do Planeta, aflorámos esse tema, entre muitos outros. Por elas ficámos a saber que São Paulo tem problemas com a água potável já que os aquíferos, embora ricos, se encontram poluídos. A ganância, que grassa por todo o lado, permitiu que a grande metrópole se estendesse em construções que chegam às encostas de onde escorrem cursos de água. Em consequência, nas caves desses prédios abusivamente implantados onde não deveria existir construção, foram instaladas bombas que, dia e noite, escoam, rua abaixo, as águas que nelas se depositam, sem proveito para ninguém, o puro desperdício de um bem que deveria ser usufruído por todos. Quanto ao saneamento básico, as zonas rurais envolventes desconhecem o conceito. Os mais esclarecidos constroem, nos seus quintais, fossas ecológicas cujo material orgânico é, posteriormente, aproveitado no enriquecimento dos solos agrícolas. Espantou-as, a informação de que, em Portugal, mais de 90% do território habitado dispõe de infra-estruturas modernas e eficazes.

Saltitando de tema em tema, soubemos que eram, ambas, professoras aposentadas do sistema público. Curiosamente, não tendo laços familiares, estas duas senhoras descendem de holandeses. Uma delas, de feições marcadamente orientais, tem as suas raízes mais próximas no Japão. O nome de família é Okajima, apelido comum naquele país. Esta palavra sugere-me  um fruto, tem forma de fruto, não sei porque razão, colorido, sumarento e aromático. Rimos os quatro quando eu partilhei esta ideia, tirada de coisa nenhuma, assente apenas nos sons da palavra, tão ritmados e melódicos que lhes associei os sentidos e lhes dei um corpo.

Quem sabe? Existindo tantos frutos exóticos que desconheço, talvez ainda, um dia, possa saborear uma okajima. Bem madura, que não gosto de fruta verde.

Maria Amélia de Vasconcelos
Texto publicado no jornal da  S. C. M. do Cartaxo

25 julho 2015

GUERNICA

GUERNICA - Tecto das Casas da Junta - 2015

Foto de: Maria Amélia de Vasconcelos 

22 julho 2015

GUERNICA - PEÇA EM TRÊS ATOS

Quente, muito quente, assim entrou o verão este ano e assim se tem mantido, pelo menos no centro/sul do país. Alguns ameaços de trovoada, sem efetivas consequências, não têm chegado para descolorir este bom tempo que reclama por pausas nos afazeres, tempo de férias para quem as pode gozar. E, quando tal não é possível, uma excursão de um dia, ou de meia dúzia de dias, já vale para quebrar as rotinas e descansar o espírito.

Há três semanas tive a oportunidade de usufruir de um breve intervalo que aproveitei para conhecer melhor o País Basco. É um encanto viajar pela Cordilheira Cantábrica, ver a água deslizar pelos leitos em declive, adivinhar, entre as copas das árvores, de um verde sempre novo, o solo túmido, sempre pronto para gerar vida. E o mar sempre por perto, mesmo quando a cortina vegetal oculta à vista o Golfo de Biscaia.

As cidades, ricas em monumentos e em arquitetura contemporânea de qualidade, têm vindo a afirmar-se por um crescimento não agressivo, quer em altura, quer em volumetria. Se existem ou existiram desequilíbrios ecológicos, eles não se deixam aperceber pelos olhos apressados dos turistas, esses espreitadores sem tempo para minúcias.

Nunca tinha estado em Guernica.

No entanto, em termos históricos, Guernica era-me familiar, enquanto cenário de um horror sem ressalvas, muito para além de um episódio sangrento de uma qualquer guerra. O que se passou em Guernica foi um massacre intimidatório para memória indelével de contemporâneos e vindouros, para que não ousassem nunca mais querer o que o poder instituído proibia.

Em termos artísticos, o quadro conhecido com o nome da cidade, pintado por Picasso em tons de cinzento e negro (que outras cores poderia usar para representar um alegoria àquela violência gratuita? Talvez o rubro do sangue e do fogo!), leva multidões a admirá-lo no Museu do Prado. É assim que Guernica continua a clamar em uivos de dor, uma dor que não conhece paliativos.

Julgava conhecer, em traços fortes, toda a tragédia. Não conhecia. Antes deste terceiro ato tinham-se desenrolado os anteriores, menos divulgados, e resumidos como segue:

1º ato: numa aldeola dos arrabaldes, as mulheres, com as suas pequenas crianças agarradas às saias, lavavam a roupa no tanque comunitário. Ouviu-se o roncar dos motores de um avião a partir do qual foi descarregada sobre o grupo a metralha necessária para fazer o que tinha de ser feito: matar, estropear, ferir, amedrontar, calar.

2º ato: num domingo, os católicos de três lugarejos assistiam à missa na única igreja existente. Passou um avião e, sobre aquela comunidade em oração, foram disparados tiros até que o pequeno templo se desmoronou esmagando todos os que estavam lá dentro.

De horror em horror, no 3º ato foi usada – testada – uma bomba para que a terra tremesse e se rasgasse, e nem o carvalho ao redor do qual, desde tempos muito remotos, os povos se reuniam para administrar a justiça e decidir do seu rumo, subsistisse. A árvore não terá sido queimada, assim se diz. Também não foram queimadas as Casas da Junta ou Assembleia, conjunto de construções frente às quais se dispuseram, fardados, os voluntários ingleses que estavam no país. Pouparam-se as instituições bascas, os seus símbolos, ou os estrangeiros, quando ainda era cedo para declarar a guerra ao Reino Unido, guerra que envolveria grande parte do mundo?

Como recordação, e por amabilidade do guia, trouxe de Guernica uma folha de carvalho, de um dos muitos carvalhos que por lá se encontram. Não gostaria de a perder porque gosto de cuidar da memória, mesmo quando dói.

Maria Amélia de Vasconcelos
Texto publicado no jornal da  S. C. M. do Cartaxo.

17 junho 2015

Algures, na rota dos Picos da Europa - 2014

Foto de: Maria Amélia de Vasconcelos
                                                                            

CHAFARIZ

Escrevo no dia de Santo António, o santo português nascido em Lisboa e que o mundo cristão conhece, sobretudo, como «de Pádua», a cidade italiana onde viveu, pregou com elevada erudição e faleceu, em cheiro de santidade, com, aproximadamente, trinta e seis anos de idade.

Contemporâneo de São Francisco, o testemunho espiritual que nos legou reflete a sua sabedoria e amor ao próximo. A fé popular encarregou-se, porém, ao longo dos séculos, de envolver a sua figura austera em lendas, de recorte variado, compondo cenários nos quais ocorrem milagres «suaves» como o conto que Eça de Queiroz escreveu, milagres singelos para a satisfação de preces inocentes ou, até, para resolver acidentes de pouca monta, como é o caso das bilhas quebradas por causa de namoricos à beira de um qualquer chafariz.

O quadro-tipo destes milagres é, com ressalva de pormenores, o seguinte: uma moça de aldeia, ao findar do dia, depois da faina no campo ou nas lides caseiras, pega no cântaro de barro e vai enchê-lo à fonte ou a um poço. Depois de cheio, coloca-o à cabeça no preciso momento em que, detrás de uma sebe, lhe aparece o namorado ou o rapaz que a requesta. Assustada ou emocionada com o encontro, a rapariga perde o equilíbrio e a bilha faz-se em pedaços, caída a seus pés. Sem recipiente, como recolher a preciosa água? E é água, mas salgada e em torrente, que, então, lhe cai pelas faces. Que lhe valha Santo António naquela aflição! O santinho, condoído, acorre a restaurar, pedaço a pedaço, (ou terá sido com um simples estender da mão, ou com um sorriso, ou com um olhar?) a infusa que, retornando à fonte, se enche de novo, mais inteira do que quando o oleiro a deu como pronta.

Há dezenas de lendas que atribuem milagres deste género a Santo António, um santo muito querido dos portugueses, e não só. Um pouco por toda a parte, no mundo católico, há imagens de Santo António nos altares, havendo casos em que lhe são dedicadas capelas; emociona encontrá-las em países tão distantes do nosso. Em Roma, a igreja de que é orago é também conhecida como «igreja dos portugueses».

O tema «Santo António» preencheria várias páginas, livros inteiros, até. Talvez em futuras «Palavras Roladas» calhe voltarmos ao assunto. Hoje, o título do artigo é «Chafariz»; assim o pensei, assim o mantenho. Mas, tal como as cerejas, que se vão comendo sem darmos por isso, assim são as palavras: marcamos-lhes um rumo e desviam-se, fogem à nossa regra, tornam-se, por assim dizer, donas do seu destino, rolando, rolando...Precisamos de lhes dar uma voz de comando inequívoca se queremos garantir o nosso propósito.

Ora, pois, chafariz é uma palavra de origem árabe – quem diria? – uma das que nos ficou, bem firme, na linguagem comum. Inicialmente, o termo correspondia, também, a cisterna, poça de água, bebedouro, lavadouro público. Enquanto «poça de água» era, de facto, uma fonte de mergulho, uma espécie de tanque em que se mergulhavam as vasilhas para as encher. Os preceitos de higiene vieram proibir esse método de abastecimento, perigoso para a saúde pública, quanto mais não fosse, porque os animais bebiam também, diretamente, desses tanques. Um documento da Chancelaria de D. João I, de finais do século XIV, manda que se faça «um chafariz para beberem bestas...», prova de que, na ressaca da peste negra, se entendia que os humanos deveriam servir-se de fontes cujas águas não fossem contaminadas por animais.

No século XVIII, D. João V dedicou uma atenção especial ao abastecimento de água às populações, mandando sanear nascentes e fontes, encanar a água e fazê-la sair, mais ou menos, límpida, de muitos chafarizes nos territórios que compunham o Portugal de então. Alguns deles são edificações barrocas elaboradas, rematadas pelo escudo régio, uma marca de poder que valia uma assinatura.

Para terminar, deixo-vos o desafio: numa próxima viagem, dentro ou fora do país, atentem nos chafarizes. Talvez vos espere uma bela surpresa. Um milagre? Só se for o do bom senso e do bom gosto com que os antigos cuidaram, em sentido largo, de dar de beber a quem tem sede.

Maria Amélia de Vasconcelos
Texto publicado no jornal da  S. C. M. do Cartaxo.