| Brincos de Princesa - Funchal, Ilha da Madeira - 2009 Foto de: Maria Amélia de Vasconcelos |
Palavras Roladas é um espaço de simples reflexão acerca das palavras que usamos na linguagem de todos os dias e, porventura, de outras, menos gastas, quando convier. As imagens visuais hão-de infiltrar-se, seguras da sua eficácia. Palavras roladas, como os seixos que o vento e o movimento das águas afeiçoaram, como frutos. Então, os olhos encontram-nos e a mão recolhe-os e aquece-os um momento para, mais além, os devolver à praia onde outros olhos e outras mãos os hão-de descobrir e dar calor.
17 junho 2015
MAIO, MADURO MAIO...
Assim começa uma das
baladas que José Afonso cantou e que continuamos a ouvir, sempre com a emoção
que produz uma bela música à qual se junta a poesia, tão acertadas uma com a
outra que parece terem nascido de um mesmo fôlego de inspiração.
Maio é o mês de
transição entre o frio e o calor, o inverno e o verão, o ponto médio entre a
dormência da natureza e a sua revitalização. Chamamos-lhe «o mês das flores»; a
Igreja Católica dedica-o à Virgem Maria. Quando referimos «o mês de Maria», é
de maio que falamos, associando a delicadeza
das flores à figura da Senhora que, em Fátima, se manifestou, pela primeira
vez, em maio, aos pastorinhos.
Por detrás destas
conhecidas e atuais denominações, existe um fundo muito antigo que remonta às crenças
e cultos dos povos que nos antecederam, povos cujos conhecimentos não eram
científicos, demonstrados por experiências exatas e sistemáticas, mas colhidos
pela observação dos fenómenos naturais, como o crescimento de animais e plantas
e o movimento dos astros. Assim se foi estabelecendo um sistema de crenças,
práticas religiosas e atividades de subsistência que regulava a vida social de
cada tribo e que tinha como suporte um sincretismo que não era questionável.
Como é próprio do ser
humano, os momentos de festa, tão necessários ao corpo e ao espírito, ocorriam
no tempo determinado, interrompendo o labor do dia a dia. Não existia o
conceito de férias mas eram frequentes as festas de caráter sagrado,
obrigatórias para toda a comunidade.
A mãe do deus Mercúrio,
Maia, era cultuada na Roma antiga. O seu nome foi atribuído ao quinto mês do
calendário juliano e as festividades, no 1º e 15º dia do mês, atingiam o seu
ponto máximo. No primeiro dia, as portas das casas eram enfeitadas com flores,
assinalando o bom tempo e, também, o mito segundo o qual a deusa enfeitava o
filho, enquanto bebé, com flores amarelas.
Os celtas também
realizavam, em maio, uma festa de índole mágico-religiosa visando a
fertilidade, em honra do deus Beltane ou Beleno, nome que significa «o fogo
sagrado». Esta festa ocorria na primeira noite de lua cheia de maio. O lume de todas as casas da aldeia era
apagado, após o que, no cimo de um monte, se acendia uma fogueira a partir da
qual se iam acendendo fogueiras menores. Destas, eram retirados os tições, de
modo que o lume pudesse, de novo, brilhar em cada lar, um novo lume, início de
um novo tempo. Ao redor das fogueiras, o povo dançava, cantava e comia até
raiar a aurora.
Em Portugal subsiste,
ainda, o costume de enfeitar portas e janelas com ramos de giesta, um arbusto
de flores amarelas a que, no norte, chamam «maias». Consideradas pagãs, estas
decorações e festas foram proibidas, pelo menos até ao século XV. Mas a
tradição era mais forte e, na prática, nunca foram abandonadas. Em Trás-os-Montes,
na festa das maias, comem-se castanhas já secas ou piladas. Nalgumas aldeias,
as jovens enfeitavam de flores um menino – o Maio-Moço – e mostravam-no, de rua
em rua, cantando e dançando. No sul do país, havia o costume de as meninas se
vestirem de branco, adornadas de flores e de se sentarem às portas, ou num
largo, enquanto as amigas pediam uma moeda a quem passava. No Algarve, na zona
de Lagos, ainda se fazem bonecas a que chamam maias, um artesanato urbano
moderno, com raízes no tempo em que se faziam bonecas com palha de centeio,
coroadas de flores.
Tanto quanto julgo
saber, no Ribatejo não há vestígios da tradição das maias. Lembro-me, porém,
quando era criança, que, na manhã do 1º de maio, deveríamos sair cedo da cama
para que «o maio» - personificado como coisa nefasta, a modos de um
«mau-olhado» - não viesse atrasar-nos a vida.
Madrugar não era fácil
para mim, que sempre preferi seroar. Em todo o caso, esses maios de manhãs bem
dormidas, sem alvoradas por via de costumes ancestrais que desconhecia,
parecem-me ter sido inofensivos. Ou será que tenho andado enganada este tempo
todo?
Maria Amélia de
Vasconcelos
Texto publicado no
jornal da S. C. M. do Cartaxo.
15 abril 2015
POEMA INCERTO
Falta apenas gravar
o poema
o altíssimo poema
alçado acima da cordilheira
tão íntimo e fundo
que só a candeia
da lua ousará
soletrá-lo ao mundo.
Falta o poema
sempre haverá de faltar
enquanto a voz recolhida
não encontrar medida
para o proclamar
à relva rasteira
ao fruto maduro
à mudez do cisne.
Enquanto se escreve
só se vive por dentro
entre o caos do sentimento
do som distorcido
do ar sem vibração
das letras libertárias
alheadas da regra
que as palavras lhes dão.
Se o turbilhão não aquietar
em valsa lenta contido
o sentir não tem motivo
morre o botão por abrir
seca o poema por florir
e as palavras se as houver
também elas vão morrer
à procura de sentido.
Maria Amélia de Vasconcelos
27-02-2015
Maria Amélia de Vasconcelos
FOTOS
O meu pai contava que um membro da nossa família, fotógrafo
profissional, era tão apurado na sua arte que, nos anos 40 e 50 do século
passado, conseguia que aparentasse estar bem escanhoado qualquer cliente que
exibisse uma barba, digamos, de três dias. Agora usa-se esse tipo de barba mas,
na altura, uma foto do tipo «passe», a exigida para documentos, deveria
identificar claramente o titular, pelo que, essas «meias tintas» a sombrearem a
face não convinham, de todo. Era aí que entrava a arte e a técnica que andam
sempre a par: retocar até que fosse atingido o resultado pretendido. Era o «fotoshop»
da época, certamente mais demorado e menos perfeito do que o atual, dependente,
apenas, da perícia do executante.
Gosto muito de fotografia. Aprecio as obras dos grandes
mestres – incluindo os do cinema – e também as fotografias que registam os
acontecimentos sociais, fontes históricas de grande valia que refrescam a
memória de gerações.
Tenho uma pequena máquina fotográfica, muito simples, de que
me sirvo, uma vez por outra, com resultados modestos, quase sempre. Escolho o
tema, o ângulo e a distância, o mínimo que se tem de fazer; fujo de mexer em
muitos botões porque, ignorando o respetivo potencial, arrisco-me a falhar o
objetivo. Fico-me pelo flash e pela aproximação e, assim, julgo garantir a
imagem que pretendo. E, quando digo «julgo garantir» estou a falar de uma
«fezada» pois, frequentemente, ao serem passadas para o écran do computador,
encontro fotos sem qualidade. Aí, valha-nos o «são delete»... e já cá não está
quem errou.
Nos primeiros dias deste mês de abril, muito luminosos, fiz
mais de cem fotografias em diversos ambientes. Parecia-me, contudo, que o visor
não me estava a devolver exatamente o que eu tinha focado; mas, na incerteza, e
porque queria registar todos os temas, fui sempre clicando. Ao descarregar a
máquina, foi a total desilusão: imagens sem definição, algumas quase brancas,
só mostrando um ou outro pormenor mais contrastado. Salvou-se uma dúzia, ou
pouco mais. Foi como se aquela luz intensa tivesse entrado no aparelho e dele
fizesse casa sua, e tivesse arrancado, com o poder daqueles detergentes de que
fala a publicidade, todas as cores, todos os contrastes, todas as sombras,
todas as nódoas, num delírio de limpeza, branco mais branco, sem concessões.
Para mim, uma leiga na tecnologia, aquilo raiava os contornos da bruxaria.
Analisada, porém, a máquina por quem percebe das subtilezas
dos automatismos, as peças encaixavam-se sem que caíssemos no domínio do
sobrenatural maléfico. No momento em que iniciei a sessão fotográfica,
inadvertidamente, terei tocado num daqueles botões que fazem coisas magníficas
nas mãos de quem os sabe premir, e lá fui continuando com os procedimentos
básicos usuais sem saber que estava a lidar com seda finíssima. Explicadas
aquelas imagens do tipo «o rei vai nu», como justificar, então, a tal dúzia de
fotos boazinhas, com bonitas sombras e cores naturais? Isso também me foi
explicado mas pouco retive do discurso, dado entender mal o «maquinês»,
sobretudo o que é empregue nos manuais de instruções.
Como o gosto pela fotografia não ficou beliscado por esta
desastrada aventura, continuarei a «disparar», havendo motivo ou sem ele, e,
espero eu, sempre se hão-de salvar umas quantas, das boazinhas.
Confesso-me uma fotógrafa de fé.
Maria Amélia de
Vasconcelos
Texto
publicado no jornal da S. C. M. do Cartaxo.
28 março 2015
AZULEJOS
Barro roubado à terra
seu mais-que-profundo lar
de onde o arrancou
aquela mão ancestral
que primeiro o moldou.
Em exercício de geometria
rigor de linhas
absoluta regularidade
vibra um canto de alegria
nos volumes da cidade.
As faces e as arestas
e a exata cor
que o pintor escolheu
acrescentada pela cor
que o fogo depois lhes deu.
Azulejos reservas de luz
contidos lado a lado
entre nexos e reflexos
parábola material
de um ideal
da humanidade.
Maria Amélia de Vasconcelos
4-02-2015
TRIÂNGULO VITAL
Meados de março, um tempo atmosférico risonho, com anúncios
de primavera a pedirem roupas mais leves de dia, porque, de noite, o friozinho
continua, na medida certa, como manda o calendário.
Este terceiro mês do ano concentra muitos «dias de». Já se
comemorou o Dia da Mulher que, infelizmente, ainda faz sentido destacar, tamanha é a desigualdade de
género que se verifica no tratamento
menorizante, quando não desumano, de que a mulher é vítima, todos os
dias, em vários pontos do globo, num qualquer ponto perto de nós.
O Dia do Pai, 19 – dia de São José – homenageia os homens que
geraram amor e gratidão naqueles que criaram e educaram, sejam, ou não, pais
biológicos. Quando o não são, e dão exemplos de vida e de amor,
mais merecedores, ainda, de serem lembrados com carinho.
No próximo dia 21 começa oficialmente a primavera ( se ela
quiser, bem entendido). Para o mesmo dia estão
marcadas duas comemorações: o Dia Mundial da Floresta e o Dia Mundial da
Poesia. Temas tão
díspares, na mesma data? Pode parecer que sim, à primeira vista. No
entanto, os conceitos andam ligados
através da origem semântica da palavra «poesia»
que significa «a criação, o fabrico, a invenção». Mas, então, a floresta
pode ser criada, fabricada, inventada? A resposta é sim. O homem
que desmatou vastas áreas sem saber que punha em risco a
biodiversidade e o equilíbrio natural, ou, já sabendo do alcance negativo
dessas ações, tem persistido em as manter, a troco de vantagens económicas
imediatas e egoístas, é chamado, em nome do bem comum, à reinvenção da
floresta, com as espécies autóctones, plantadas e cuidadas de acordo com as
diretivas internacionais elaboradas cientificamente. Há acordos firmados entre
países nesse sentido, alguns cumpridos ou em vias de cumprimento, outros
ignorados, porque não são lucrativos a curto prazo. A percentagem das áreas
desmatadas tem vindo a cair, mas de forma tímida, ainda. É um primeiro passo do
esforço empreendido pela ONU que criou esta comemoração em 1971, adotada, desde
1972 em muitos países. Até ao final do século XX multiplicaram-se as campanhas
esclarecedoras que começam agora a produzir alguns resultados.
No dia 22, o dia seguinte, comemora-se o Dia Mundial da Água,
também uma iniciativa da ONU, de 1992, visando incutir nos habitantes do
planeta em geral, e nos decisores políticos, em particular, a ideia de que a
água potável – aquela que o ser humano pode usar na sua alimentação – é um bem
muito escasso e que tem de ser bem gerido e acautelado. Há populações que
morrem à fome por não terem água: Em consequência, emigram massivamente em
busca do que lhes falta. Deslocam-se nas mais degradantes condições, invadindo
outras regiões onde, quase sempre, são
mal acolhidas. As campanhas
assentam na ideia humanitária de que o direito à água é o direito à vida. De
toda a água existente na Terra, apenas 0,008% é potável. Esta diminuta
percentagem mostra bem o cuidado que tem de ser posto neste bem, que é preciso
que chegue a todos e que não pode ser detido apenas por alguns.
Nos dias 21 e 22 estamos a comemorar um triângulo de
interesses vitais e de benfazejas intenções que tocam a todos. Resumindo:
preservar e melhorar a floresta, o berço de muitas espécies vegetais e animais
e da qualidade do ar; cuidar dos ribeiros, rios, lagos e águas subterrâneas, o
sangue e a linfa da vida; amar a poesia, alimento da alma, a força para
encetarmos o caminho que conduz ao sentido mais profundo da própria vida.
Maria Amélia de
Vasconcelos
Texto publicado no
jornal da S. C. M. do Cartaxo.
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